Das Lutas

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Pensando o Ocupa Rio: encontros, encantamentos, rupturas e abandono

Artigo escrito por Mariana Corrêa dos Santos para o livro “Paz na Pista”, de Paz Berti

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Cada vez mais acredito que o que foi vivenciado durante os dois meses de Ocupa Rio levará muito tempo para se repetir. E para se compreender. Muitas análises dos movimentos Occupy já foram publicadas, mas vejo que ainda estamos no olho do furacão, muito respaldados por políticas sociais e econômicas protecionistas que mascaram a crise econômica que assola a Europa e os Estados Unidos, onde os movimentos de ocupação tiveram participação maciça de desempregados e afetados economicamente.

Essa não foi a realidade no Rio de Janeiro. Recebemos através de redes sociais um chamado para manifestação a favor da Democracia Real, a se realizar no dia 15 de outubro de 2011, apelidado de 15.O. Aproximadamente 200 pessoas se encontraram em frente à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, na Praça da Cinelândia, com cartazes e vozes. Num primeiro momento partidos políticos tentaram capitalizar a manifestação, com bandeiras e palavras de ordem que, por decisão quase espontânea da maioria, foram baixadas ou removidas. A manifestação era apartidária, por uma democracia real e crítica à democracia representativa.

A chuva não poupou os cartazes espalhados pelo chão, eram tantos, tantas expressões de descontentamento, de lutas locais, globais, particulares e coletivas. Era um melting pot de desejos de mudança. Da Cinelândia, fomos todos para o Palácio Capanema, e lá nos dividimos em Grupos de Trabalho (GTs). Cada grupo tinha sua roda de interessados sentados no chão, dividindo conhecimentos prévios e desejo de aprender algo novo.

É importante ressaltar que nesse primeiro momento, a maioria dos manifestantes aparentava ser de classe média baixa a alta, brancos e com nível de escolaridade alto. As exceções vinham, por exemplo, com o grupo Reciclato, advindo de ocupações urbanas próximas, militantes de movimentos sociais urbanos e rurais, e alguns moradores de rua que queriam falar sobre o governo, sobre suas angústias pessoais, sobre o que sentiam vontade de dizer e quase nunca tinham espaço e voz para isso. Máscaras de Guy Fawkes surgiram, e cobriram os rostos de diversos manifestantes, uma alusão certeira aos movimentos Occupy mundiais, como Occupy Wall Street, Boston, Madrid, Londres, entre tantos outros. Com os Grupos de Trabalho definidos[1], a ocupação física da praça foi adiada para o dia 22 de outubro de 2011. Durante essa semana que se apresentava, grupos online foram criados (email e redes sociais), propostas debatidas, estruturas planejadas. Era preciso pensar o que significava fazer parte desse todo que desejava mais, de forma barulhenta e veemente.

Era uma manhã nublada, mas nada impediu a chegada de mais 500 pessoas, num total de circulação de mais de 2.000. Debates sobre a ocupação e sobre os formatos decisórios tomaram um bom tempo, e ao final uma certeza se tinha: não haviam representantes do Ocupa Rio, nada seria decidido a não ser através do consenso e em assembleias, que deveriam ser diárias. Essa massa que se formava, amorfa e heterogênea, precisaria aprender a pensar em uníssono ou pelo menos a se comunicar para aprender a transformar o dissenso em consenso. Por mais que essa forma de pensar viesse a ser no futuro o grande estrangulamento da ocupação em si, que não conseguia fugir da fórmula inicial e mutar, como o acampamento mutou, ela funcionou como espaço para surgir os desejos, os conflitos, as confluências.

Com a frase mote “A casa caiu! Levante sua barraca!”, os ocupantes armaram sua acampada, próximo à saída do Metrô da Cinelândia, em frente ao Cine Odeon. Poesia, música, fotografia, teatro, cinema, oficina de cartazes, vídeo, livestreaming, rádio, a praça foi tomada por diferentes práticas sociais e culturais, criando um contexto político claro de vontade de mudança. Mas mudar o que? As pautas eram diversas, e dificilmente se chegaria a um consenso sobre o que era exatamente o Ocupa Rio, e naquele momento isso era exatamente o que o tornava tão interessante. Essa fluidez de pensamentos, ações e práticas políticas fez com que a relação diária fosse tão rica e produtiva.

Já nesse primeiro momento, o aparato de “segurança” estatal foi acionado, com guardas municipais e policiais militares solicitando falar com o “líder ou representante” do grupo de ocupantes. “Não existem representantes” era respondido, causando estranhamento e confusão. Munidos de smartphones, fotografavam os rostos dos manifestantes, que fotografavam de volta, numa forma de deixar claro que tudo seria registrado, toda ação seria interpretada como um ato político de repressão.

Em poucos dias chegamos a 150 barracas, e a “cara” da Ocupa Rio se modificava a cada nova chegada. As articulações para que a acampada funcionasse foram diversas. As assembléias passaram a ser quartas e sábados, e os Grupos de Trabalho passaram a ter certa autonomia das assembléias. A comida (vegetariana por algumas semanas) era feita numa ocupação urbana próxima que possuía uma cozinha industrial. Os mantimentos vinham de doações e da xêpa de feiras próximas. A luz vinha de um “gato” na luz da praça, que mudava de lugar da mesma forma que mudávamos as barracas de lugar. Com ela funcionava o streaming das assembleias, a rádio Ocupa, a iluminação da “cozinha” improvisada. As barracas eram individuais ou coletivas, onde os amores também podiam ser individuais ou coletivos, onde eram passadas horas de conexões das mais variadas, físicas e metafísicas. Ocupar era e é um ato político, da forma que for.

As atividades dos Grupos de Trabalhos transformavam a praça em espaço criativo de todas as formas, fosse com as intervenções de Terrorismo Queer, com as grandes rodas do GT de Comunicação ou as longas horas de debate do GT Teoria. Mesmo quando a praça era ocupada por outras “tribos”, era possível transitar e ganhar o espaço no grito, como ocorreu no “Dia Contra a Injustiça e em Defesa do Rio”, onde o governador e prefeito fretaram ônibus e pagaram lanches a quem fosse protestar a favor dos royalties do petróleo ficarem no Rio de Janeiro.

As cores foram mudando, pintando a Cinelândia e seus ocupantes novos e antigos, ressignificando a rua, a praça, a circulação de pessoas, informações e conhecimentos. Barracas fixas foram instaladas para a produção de GTs específicos, como o de Comunicação, com seu centro de mídia improvisado, biblioteca e escambo de livros e roupas. Essa movimentação traz de volta uma população em situação de rua que havia se afastado com a ocupação, em posição de estranhamento. Um grupo que não precisa de “atestado de pertencimento”, que simplesmente chega e se torna parte do que já está ou é. Dança, política, comunicação e música. As questões perpassam umas as outras e transpiram para a população passante que, curiosa, tenta entender o que tanto falam naquelas rodas, ou porque aquele rapaz está nu com uma gaiola na cabeça.

A praça se tornou um microcosmo da cidade do Rio de Janeiro, de suas contradições inerentes à uma metrópole capitalista moderna, onde a beleza e a miséria transitam lado a lado. Nesse processo, muitos desistiram de encarar a realidade política ali apresentada, com discursos se modificando, mochilas e barracas desarmadas, incapacidade de compreender aqueles que eram os “ocupantes primordiais” dos bancos, papelões, das improvisações e jogo de cintura de “ocupar a rua, ocupar a praça, ocupar o mundo”.

Aquela maioria de manifestantes que aparentava ser de classe média baixa a alta, brancos e com nível de escolaridade alto foi dando espaço para a realidade das populações que residem nas ruas. A cozinha foi se modificando, carnes e peixes que surgiam de doações, de “desenroles”. Já não mais era na ocupação vizinha, mas no meio da acampada, com um fogão emprestado e um botijão de gás “arrumado”. Mesclaram-se aqueles jovens militantes, artistas, músicos, internautas, e essa população em situação de rua sem sobrenome e algumas vezes sem nome, transformando a experiência da acampada no mais fiel retrato das dificuldades na criação e desenvolvimento da democracia na sociedade capitalista. Retrato da fome, do não-possuir, do que choca, do dissenso que não pode e não deve virar consenso. Porque a sociedade capitalista não é bonita, não é maquiada, é violenta, rude e nos torna impotentes. Mas ali, na praça, os que se representam e os que nunca foram representados encontraram voz. Algumas falaram mais alto que outras, em alguns momentos mais embriagadas, mais cracudas, mais emocionadas. Mas todas puderam ser ouvidas, até as que pediam ajuda para “remover os moradores de ruas, chamando a polícia para nos proteger”. As contradições podiam, tudo podia.

E com essa configuração, aos 42 dias de ocupação, a tropa de choque da Polícia Militar, a Guarda Municipal do Rio de Janeiro e os Agentes da Secretaria Municipal de Assistência Social chegaram e rodearam uma ocupação já enfraquecida, ou diminuída, com o choque de realidade, onde somente poucos sobreviveram ao não-encantamento da violência efetiva da miséria do “estar na rua”. Nesse dia, foram removidas barracas, pessoas e sonhos. Foram jogados no lixo os livros da biblioteca, e encaminhados para abrigos aqueles que eram considerados “inadequados” ao espaço público do centro da cidade do Rio de Janeiro, mostrando de forma gritante a política “higienista” da atual gestão da prefeitura e do estado, que deseja “limpar” a cidade da população moradora de rua, pobre, usuária de drogas e álcool.

Há quem diga que a falta de um objetivo claro foi o que enfraqueceu a ocupação. Faço uma análise mais pessoal: o que enfraqueceu a ocupação foi a expectativa. Muito se esperava do que seria a Ocupa Rio, esse espaço público tomado na marra, e transformado numa pequena cidade dos sonhos. Ali se debatia política, se falava de educação e de democracia, se criticava o capitalismo e todas as suas desigualdades. Desenvolveram-se afetos, convergências, amores. Esperavam uma Praça Tahir. Entretanto, quando o conflito real se apresentou das mais diversas formas possíveis, como miséria, como choque, como confusão, apenas um pequeno grupo de formações heterogêneas se mostrou disposto a transitar por todas essas formas e compreendê-las como identidades políticas que transbordavam e se derramavam pela praça. Encontraram a Cinelândia.


[1] Os grupos de trabalho foram diversos num primeiro momento: Comunicação, Infraestrutura, Teoria, Atividades, Educação, Processo, Alimentação, Queer, Reciclagem, Ação Direta, Arte e Cultura, Segurança, entre outros.

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Publicado às 7 de junho de 2013 por em Memória das lutas e marcado , , , .
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