Das Lutas

Coletivo

O Levante da ALERJ

Alerj

Por Fernando Monteiro

As pessoas que estiveram na Alerj não são vândalos. Eu estive na porta da Alerj e não sou vândalo. A tentativa de transformar o que aconteceu ontem naquele cantinho do Centro da cidade em uma ação de bandidos não é válida. Outra coisa que não é válida é a tentativa de transformar um movimento bastante amplo e heterogêneo numa patriotada totalmente despolitizada e que vão as ruas apenas para fazer um carnaval e “protestar contra a corrupção e roubalheira”. Pois, para mim, roubalheira e corrupção é o fato de que os que produzem não detenham a posse dos meios de produção, contudo não é essa a reivindicação central do movimento, pelo menos até agora. É preciso ter um pouco de crítica antes de aceitar qualquer explicação fácil que coloca a “ação dos vândalos” como algo “extremamente danoso para a sociedade”. Faz-se necessário compreender os engendramentos econômicos e sociais que levam uma parcela significativa da população do Rio de Janeiro às ruas e porque fatias menores dessa massa adotam atitudes que como dizem por ai “não condizem com a doçura do carioca”.

A quantidade de dinheiro novo que ingressou na nossa economia nos últimos anos, distribuída fartamente via BNDES entre empreiteiras e um restrito número de corporações veio gradualmente encarecendo o custo de vida do brasileiro. O carioca tem sentido na pele, e de maneira bem particular, os resultados desses excessos do governo na hora de brincar com o valor do dinheiro. Não nos esqueçamos de que o Maracanã custou 1Bi aos cofres públicos, é muito mais que os “vitrais franceses” da Alerj. Não nos esqueçamos de que antes do aumento do preço final dos produtos e serviços chegar às passagens, ele já havia chegado aos imóveis, alimentos, combustíveis e diversos outros bens de consumo num país onde o salário mínimo é de míseros R$ 678,00.

Numa rápida olhadela para os diversos grupos que estiveram na porta da Alerj ontem, e você só saberia disso se estivesse lá, percebiam-se pessoas que destoavam da passeata “paz & amor” da Avenida Rio Branco. Percebiam-se, para além dos grupos de punks, grupos de torcedores organizados oriundos da baixada fluminense (algumas pixações e palavras de ordem denotam a presença deles), pessoas do subúrbio – e eu também sou do subúrbio – que passam por problemas diferentes dos universitários brancos da zona sul e zonas mais nobres da cidade. Moradores de favelas ou bairros pobres que trazem para as ruas um acúmulo de uma vida inteira de contato violento com o Estado e geralmente essa violência é proporcionada pelos mesmos personagens que estavam “protegendo” a Alerj ontem. Essas pessoas vêm de locais onde o filho chora e a mãe não vê. Onde a violência do Estado se apresenta de uma forma brutal e organizada, respaldada por um conjunto de leis construídas das elites para as classes populares em uma estrutura totalmente vertical e sem canais de diálogo. Tais grupos se juntam a pessoas que passaram pela escalada da violência policial no protesto do Maracanã no Domingo, onde os PMs perseguiram de forma desumana manifestantes pacíficos dentro da Quinta da Boa vista, local onde eles foram trancafiados e enjaulados como animais. Juntam-se às pessoas que resistiram pacificamente à violência policial na porta da Aldeia Maracanã e foram brutalmente dispersados e impedidos de seu direito constitucional de manifestação, quando da sua desocupação.

Não é possível minimizar o simbolismo da destruição de bancos, prédios representativos do poder público e restaurantes caros onde a maior parte destas pessoas não tem acesso no seu cotidiano. Outra coisa que não pôde ser vista por quem não esteve na porta da Alerj é que quando a destruição chegava às bancas de jornal e pequenas lojas, muitas pessoas impediam a ação, evitando assim a perda de patrimônio do verdadeiro trabalhador. As pichações com mensagens políticas que são reprimidas por uma massa moralista são absolutamente necessárias numa cidade onde os muros estão todos pichados por nomes e mensagens sem sentido.

Pois eu digo, sem vergonha nenhuma, que as pessoas que ocuparam a Alerj ontem muito me representam. O moralismo paz & amor da sociedade é que não me representa. Não me representa o olhar diferente para manifestações idênticas em países europeus que utilizam as mesmas práticas e que são reprimidas pelas mesmas armas, onde no Brasil são vândalos e na França são manifestantes. É preciso ler as entrelinhas nos jornais para encontrar o real nelas, os conflitos abertos que existem e sempre existiram e a quem interessa criminalizar o radicalismo das ações. Não se esqueçam dos tiros de fuzil, não se esqueçam dos dois rapazes atingidos por balas de pistola, e não eram balas de borracha. O grito das Torcidas organizadas muito me representa. Os cabelos moicanos dos punks muito me representam. O A de anarquia muito me representa. A violência policial é real, o sufoco econômico também. Se você ainda não sentiu, vai sentir em breve. Só espero que não te chamem de bandido quando isso acontecer.

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Publicado em 18 de junho de 2013 por em Territórios Rebeldes.
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