Das Lutas

Coletivo

Por uma educação sem meritocracia

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*Colaboração de professora anônima

A greve dos professores do Rio de Janeiro foi iniciada no dia 8 de agosto, foi suspensa no dia 10 de setembro e recomeçou no dia 20 do mesmo mês. O fim da meritocracia é uma das principais pautas da greve. Mas o prefeito Eduardo Paes e a secretária de educação Claudia Costin afirmaram, ainda no início do movimento, que o fim da meritocracia não estava em discussão, pois seria a base da política educacional dessa gestão.

Para quem não conhece bem essa política, ela é considerada equivocada por muitos educadores e traz conseqüências que podem precarizar ainda mais o ensino público e a profissão docente. A base da política é a premiação das escolas que atingem a meta estabelecida pela prefeitura. O desempenho é medido através da realização de uma avaliação bimestral unificada em todas as escolas da rede das disciplinas Português, Matemática e Ciências. Ao todo, a rede é formada por 961 escolas e segundo os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação (IDE-Rio) de 2012, 596 escolas melhoraram seu desempenho em comparação com o ano anterior. Entretanto, apenas 430 escolas atingiram a meta estabelecida pela SME/RJ (http://www.rio.rj.gov.br/web/guest/exibeconteudo?id=4180288 <acessado em 20/06/2013). A secretária de educação afirmou estar satisfeita com esse índice, mas os professores em greve criticam essa política, pois acreditam que essa não resolve problemas estruturais da educação pública. A produção de índices pouco diz sobre as escolas e ajuda a forjar uma imagem de melhora na educação, utilizando a manipulação de dados que não correspondem  à realidade.

As escolas que atingem a meta são premiadas, funcionários e professores recebem um bônus, o 14º salário, que faz uma bela diferença no bolso de profissionais que são mal remunerados e tem seu trabalho desvalorizado. As avaliações têm base nos descritores e no material pedagógico (cadernos pedagógicos) produzido bimestralmente pela SME/RJ e encaminhado às escolas. Para atingir uma boa pontuação nas avaliações unificadas, é necessário que os professores sigam essas orientações, mesmo que elas não façam sentido no contexto em que ensinam. O material pedagógico é considerado inapropriado por muitos professores da rede, por conta da sua baixa qualidade. Afirmam que a avaliação unificada, atrelada ao uso do material oficial, fere a autonomia pedagógica, porque os professores perdem a liberdade para planejar a sua própria aula, de utilizar matérias didáticos e referências diversas, de acordo com as necessidades apresentadas por cada turma. O trabalho pedagógico se distancia cada vez mais da reflexão e aproxima-se da técnica, já que os professores se tornam aplicadores de um material didático pré-concebido e distante da realidade das escolas.

O objetivo é tornar os alunos marcadores de questões de múltipla escolha, treinados para se sair bem nas provas da rede e a responder comandos simples. O material e a avaliação unificados pressupõem que todas as pessoas são capazes de aprender da mesma maneira e dentro do mesmo tempo. Esse princípio aniquila de vez com a percepção da diferença na escola. As escolas que não atingem os índices são responsabilizadas e pressionadas. Os professores que se recusam a participar desse processo são individualmente responsabilizados, isolados e perseguidos.

O que está em jogo é a aprendizagem, atingir a meta torna-se mais importante que a aprendizagem dos alunos. Algumas denúncias de fraude nos índices são conhecidas abertamente por professores e funcionários e acobertadas pela Secretaria, pois a manipulação dos resultados ajuda a melhorar a imagem da cidade do Rio de Janeiro no ranking da educação nacional. Nas escolas, essa política divide os professores, gera conflitos entre professores e direção, engana pais e alunos. Na verdade, essa política tem como objetivo aproximar a gestão educacional da lógica do mercado, em consonância com a etapa atual do capitalismo, em que a redução dos gastos públicos aparece associada ao aumento do controle indireto sobre as ações dos indivíduos. A educação pública se torna um setor lucrativo. Institutos e fundações privadas participam desse processo, investindo em escolas, que passam a competir entre si, em busca desses investimentos. Enquanto isso, os professores são cada vez mais precarizados, sofrem perdas salariais e as condições de trabalho pioram a cada ano. E os alunos das classes populares aprendem cada vez menos na escola, sua formação é voltada para que atuem como mão de obra barata no mercado de trabalho. Assim, a educação torna-se cada vez mais ajustada aos interesses do capital.

A democracia, que de fato nunca esteve presente nas práticas escolares, se distancia ainda mais desse espaço. As decisões pedagógicas tornam-se cada vez mais verticais e burocratizadas, sem a participação de professores, funcionários, alunos e comunidade. Pensar a diferença na escola é, na verdade, uma novidade teórica. Na última década, caminhávamos, mesmo que com passos curtos, para que multiplicidade e a participação estivessem presentes nos currículos e na cultura escolar. Mas a busca por metas e índices padroniza o currículo, silencia culturas e apaga a diferença. A escola seria um ambiente muito mais potente se valorizasse a participação e se percebesse como local de produção de conhecimento e saberes, amplificando a diversidade cultural e possibilitando o encontro das diferenças, para produzir novas referências comuns. A escola que não estimula o pensamento crítico e a participação não é uma escola democrática, portanto produz indivíduos condicionados e suscetíveis à servidão complacente. Diante dessa política autoritária, a comunidade escolar e toda sociedade devem estar unidas em luta por uma educação e uma sociedade democráticas.

Educação de qualidade

Os professores lutam pela “educação de qualidade”. A SME afirma que com essa política é possível “dar um salto de qualidade na educação carioca”. Ficam aqui esses questionamentos: O que é educação de qualidade? Educação de qualidade para quem?  Educação de qualidade para quê? Qual qualidade queremos para a sociedade que desejamos construir?

Para quem quiser acompanhar de perto esse material pedagógico, ele é público e divulgado bimestralmente no site da

SME/RJ: http://www.rio.rj.gov.br/web/sme

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6 comentários em “Por uma educação sem meritocracia

  1. Paulo Cesar de Oliveira
    2 de outubro de 2013

    A prefeitura empurrou goela abaixo da população, com o título de PCCR, uma reforma estrutural da educação de base que cria dois tipos de educação uma para a massa trabalhadora e outra para elite dirigente. A sociedade civil tem obrigação de resistir.

  2. Matemárcia Dias
    2 de outubro de 2013

    Lembrei de uma reunião que fiz na implantação dos ciclos em 2006 ou 2007, que classificamos como ato impositivo, unilateral da SME e que discutíamos quando e como inseriríamos certos conteúdos. Agora nem isso podemos fazer mais. Incrível como lentamente nos engessaram.

  3. Deise Chaves C. da Silva
    3 de outubro de 2013

    A todo instante se ouve “o(a) professor(a) não é obrigado(a)”. Não somos obrigados a mudar para Professor 40 horas, porém, se não mudarmos somos transferidos para escolas longe de nossa residência (mais gasto com transporte e maior tempo de locomoção). Não somos obrigados a usar os Cadernos Pedagógicos enviados pela SME, porém, as avaliações são elaboradas pautando-se nesse material, consequentemente, os alunos só se sairão bem nas provas se conhecerem o que dizem os tais cadernos. Não somos obrigados a aumentar a nota do aluno, porém, sempre que nos recusamos a fazê-lo somos responsabilizados pela perda do 14º salário (atrelado ao alcance de metas estipuladas pela SME). Como esperar que crianças moradoras em áreas de risco (estão constantemente em sobressalto) tenham desempenho satisfatório? A meritocracia é cruelmente injusta! Eu poderia escrever muito mais, mas o assunto é tão profundo que entediaria quem estiver lendo esse comentário. Não somos obrigados a nada, porém, sempre dão “um jeitinho” de transformar a nossa vida mais penosa. Pensemos com imparcialidade… o que levaria milhares de profissionais de Educação às ruas? A insatisfação é grande! O grito de revolta estava preso na garganta! Queremos que cessem as intervenções de empresas privadas! Queremos que devolvam a escola para o povo e para os profissionais da Educação! Educação não é mercadoria! Abaixo a meritocracia!

  4. Zenite Barreto Paes Leme
    3 de outubro de 2013

    Amigos. O Prefeito está imitando o que o governador Sérgio Cabral vem fazendo há anos com as Escolas Estaduais. Esta história de “MERITOCRACIA” é para ENGANAR OS TOLOS.

  5. Andréa
    4 de outubro de 2013

    Para atingir uma boa pontuação nas avaliações unificadas, é necessário que os diretores retirem os alunos de conceito I da sala de aula e sumam com eles no dia da prova. Assim fazem 80% das escolas que recebem o prêmio!!

  6. Rafael Saad Moreira
    12 de abril de 2014

    Seus argumentos se tornam inverossímeis quando o capitalismo é atacado como o grande problema da educação pública. Essa estória de “mão-de-obra a serviço do capital”, “luta de classes” só torna o debate mais difícil pois, interpondo a ideologia nesse canal, ela por si só será o cerne do debate. Pare com a balela construtivista. Esqueça Paulo Freire e mire como inimigo da educação o desprezo pela leitura e disciplina (de todos: alunos e professores) e dos governos com o problema.

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Publicado às 28 de setembro de 2013 por em Para seguir lutando e marcado , , , , , .
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