Das Lutas

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Para que servem as máscaras?

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*Texto por Mariana Santos e Ricardo Gomes

Em diversos momentos esse questionamento surgiu nas redes sociais, nas mídias alternativas e convencionais. Para que servem as máscaras, porque os manifestantes não vão para as ruas de cara limpa mostrar sua revolta? Porque o “Black Bloc” e outras táticas utilizam máscaras?

Se for levada em consideração a forte repressão que a maioria das manifestações sofre, sendo pacífica ou não, as máscaras são um fator fundamental para a atuação política dos presentes, já que ter o rosto exposto pode levar a ameaças e perseguições dignas de uma ditadura militar. Ativistas fizeram diversas denúncias públicas ou em redes sociais, de perseguição policial. Ainda, as máscaras servem de proteção efetiva contra spray de pimenta e gás lacrimogêneo, armas de baixa-letalidade utilizadas de forma desmedida e que já causaram diversas mortes.

Hoje parece claro que a utilização de máscaras também serve para que outras caiam. A máscara do governo foi a primeira a cair, e com ela as máscaras dos intelectuais governistas e da esquerda partidária tradicional. A máscara da mídia tradicional já caiu há muito tempo entre ativistas, mas ficou mais óbvia a sua forma de manipulação a partir de junho.

Já é de perder as contas a quantidade de notas negativas que um partido que se diz de esquerda revolucionária escreveu contra os companheiros de luta que façam parte da tática Black Bloc ou de qualquer coletivo anarquista. Nem companheiros comunistas escaparam das críticas desse partido.

Marilena Chauí, em palestra proferida para a PMERJ, afirmou que o Black Bloc era uma tática fascista. Agora, Alba Zaluar diz que a tática é a responsável pela falência da política de pacificação nas favelas, mesmo “que não fosse essa a intenção”. Chama todos os que fazem ativismo nas ruas de grupelhos.

É de um desespero irresponsável esse tipo de declaração vindo de intelectuais conhecidos, professores universitários, que escrevem em colunas de jornal. Quem lê pode acreditar que realmente os participantes da tática trouxeram a violência para o Rio de Janeiro. Quem lê pode ser uma daquelas pessoas que nunca saiu de sua zona de conforto, que não sabe que a própria política de segurança pública é responsável pela violência na cidade do Rio de Janeiro há muitos e muitos anos. Essa política de segurança pública de pacificação, ou militarização, dos territórios ocupados pelo tráfico sempre foi falida desde sua concepção, pois nunca visou garantir soluções efetivas para a população das comunidades onde as UPPs foram implantadas. A militarização não resolveu o problema do tráfico, mas garantiu ao estado total poder sobre aqueles territórios, além de permitir a entrada, não de serviços públicos fundamentais para a população empobrecida – como escolas, hospitais, creches, saneamento básico – mas do capital, com agências bancárias e empreendimentos de grande porte que engolem os pequenos empreendimentos locais. Para ter certeza de que essa política de segurança é a prioridade, pois dá lucros, basta ver a recente declaração do governador Sérgio Cabral, que deseja remover um polo educacional na Rocinha para a implantação de uma delegacia. Esses são os territórios onde o capital é que dá o tom e onde a polícia está acima e por fora da lei.

Por acaso foram Black Blocs que mataram e sumiram com o corpo do Amarildo? Isso seria uma novidade no caso. E por algum acaso saber-se-ia o nome do Amarildo em todo o país não fossem as manifestações? Ou de vários outros “Amarildos” que “sumiram” em áreas de implantação das UPPs não fossem os ativistas de direitos humanos?

Não que essa produção de conhecimento atrelado ao poder seja uma novidade. Procurando o histórico de certos intelectuais é possível encontrar tanto o caminho traçado quanto a forma determinante que moldou tal caminho. Às vezes não é necessário grandes investigações. No caso de alguns intelectuais de esquerda de certos partidos ditos revolucionários que fortaleciam o discurso criminalizador em relação as manifestação e grande parte dos manifestantes, pode se dizer que se trata claramente do desejo dirigista tão facilmente encontrado na estrutura discursiva e burocrática do próprio partido. Portanto, demonstra o que sempre esteve evidente. Ele quer poder, só consegue traçar práticas e teorias a partir da manutenção de certa relação estabelecida. Em toda sua suposta radicalidade há uma incorrigível obediência e reprodução do status quo, a saber, o que não pode dominar e o que não se rebaixa aos seus interesses (teológicos) não servem. Esses intelectuais – ao contrário de outros que existem e são o contraponto positivo, pois se preocupam em pensar a esquerda que constroem e desejam de forma crítica, levando em consideração os ecos das ruas – não podem imaginar que o conhecimento seja construído fora de seus “cercadinhos teóricos”. É necessário que todos que são seres atuantes na construção do conhecimento tenham a noção de seu papel político diante dessa manutenção do status quo, da violência do Estado e sua política de segurança pública e coloquem-se diante desse contexto.

No estado neoliberal não é possível para a grande maioria ver diferença entre o Estado e as empresas que ele privilegia. E que por isso os alvos da revolta popular são também as representações estatais, além de bancos e grandes corporações. Não é preciso muito para essa análise, apenas uma conversa com participantes da tática em dias de manifestação. Ou uma leitura leve sobre o que é a tática e como ela começa. Culpar os leitores de Foucault ou Negri parece ser uma infantilidade intelectual impressionante, quiçá um escapismo do que realmente está acontecendo: uma crise da representatividade que está além do que alguns intelectuais conseguem ou desejam alcançar.

No texto de Alba Zaluar para a Folha de São Paulo há uma preocupação com o ‘sono reparador do trabalhador’, que é atrapalhado pelas manifestações. Ora, senhora antropóloga, somente nesses dias o sono do trabalhador é “perturbado”? Quando ele é perseguido em sua comunidade, quando ele não consegue pegar um transporte de qualidade, quando é explorado por seu patrão, quando não consegue um bom serviço de saúde ou uma boa escola pra seus filhos, isso não perturba o sono do trabalhador? Pois perturba o de muita gente. E essas pessoas estão nas ruas, mascaradas ou não.

Quando Alba Zaluar tenta dizer o que os manifestantes deveriam fazer, contra o que eles deveriam protestar, o que se tem aí nada mais é do que a pura retórica. Não lhe interessa nenhum tipo de protesto real. Não lhe interessa nem uma formulação autônoma e popular. Seu histórico envolvimento com o poder constituído deixa isso bem claro (por exemplo, sua relação com Cesar Maia).

Não se trata somente de pertencer ou não a um partido e sim de estruturar discursos e em prol do poder, legitimar suas ações, articular suas redes em torno de tradições reconhecidas e até mesmo aparar suas arestas indesejáveis. O que a antropóloga chamou de boas reivindicações tem este sentido e função. Ajustar o próprio poder sem com isso lhe causar maiores problemas. Se fazer críticas pontuais aos eventos é o desejável, é justamente porque isto ajudará na manutenção e na melhoria dos aparelhos em torno do qual o evento foi pensado. A FIFA ou Estado autoritário que foi forjado em torno da copa, precisam de pequenos ajustas para que nos próximos sua força de exceção possa ser funcionar melhor, possa dar menos brechas as reivindicações e resistências.

A FIFA impôs leis e regras ao país, o Estado vem promovendo uma reorganização urbana que há muito tempo não se vê, removendo famílias de maneira violenta e arbitrária já que várias das comunidades removidas estavam ali legalmente e tinham planos urbanos alternativos que viabilizavam sua permanência (planos produzidos por técnicos de universidades federais, como é o caso da Vila Autódromo). Destruindo os últimos espaços públicos e populares para dar lugar a aparelhos de produção e reprodução do capital, que tem como consequência a inviabilização da vida coletiva (como no caso do Maracanã). Promovendo uma política de segurança que age modulando condutas, onde a polícia é quem dita as mais banais ordens de convivências.

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Colocar uma máscara para dizer que uma Copa ou uma Olimpíada não podem acontecer com os custos sociais que estão cobrando, que não podem acontecer atingindo a vida desse mesmo trabalhador que precisa dormir – mas também precisa comer, morar, viver –, que não podem acontecer com remoções arbitrárias, que não podem acontecer numa cidade que sequer tem infraestrutura para seus moradores, imagine para receber eventos desse porte, não pode e não deve ser considerado um ato de vandalismo, mas uma posição de luta diante de tantos desmandos realizados em nome dos megaeventos.

Que se usem mais máscaras, então.

Elas se tornaram úteis demais ao mostrar o recorte de classe no discurso intelectual e midiático, que prefere ignorar as pautas reais e criar “cenas e relações fantásticas” entre Black Blocs e o reinício de tiroteios em comunidades com UPP para criminalizar todo e qualquer grupo que esteja contra o que esses intelectuais em “torre de marfim” determinam como correto. Nem uma palavra sobre a violência e repressão policial nas comunidades pacificadas, que levou a manifestações como Ocupa Borel ou Ocupa Alemão.

O desespero é tanto, que até um “líder” factoide, o jornalista Leonardo Morelli, foi fabricado pela mídia para uma tática horizontal e autônoma anti-sistêmica. Morelli foi detido com dinamites em São Paulo, alegou ser “líder dos Black Blocs” e estranhamente não foi preso. Seria uma piada se não fosse de extrema má-fé, pois o conhecimento teórico existe e está ao alcance de cada um daqueles que escreve levianamente sobre as manifestações.

A mídia convencional insiste em fazer ligações entre grupos organizados armados e as manifestações. Essa agenda vem sendo empurrada goela abaixo de seus leitores, para que a criminalização dos manifestantes sejam mais fácil e mais eficiente. Afinal, como enquadrar alguém pelo delito de organização criminosa sem que haja uma organização? Não seja por isso, a imprensa que não é comprometida com a verdade cria organizações para o governo, ou faz as ligações necessárias, mesmo que falsas.

Portanto, para além das questões práticas, para isso servem as máscaras, senhorxs. Para fazer cair todas essas que sufocam e oprimem. E que o uso delas derrube muitas outras pelo caminho.

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2 comentários em “Para que servem as máscaras?

  1. reciferesiste!
    19 de novembro de 2013

    Mais alguns textos para seguirmos construindo o anonimato:

    “Porque esconder nossos rostos”
    http://reciferesiste.org/porque-esconder-nossos-rostos/

    Texto circulado como panfleto pelas ruas do Recife desde os protestos contra o aumento das passagens de 2012.

    “Ao escondermos nossas faces elas se multiplicam”.
    http://reciferesiste.org/%E2%80%9Cao-escondermos-nossas-faces-elas-se-multiplicam%E2%80%9D/

    Texto publicado no jornal Estilhaço #1 em 2010

    Abraços!

  2. Carlos Vinicius
    4 de dezembro de 2013

    Sabe porque a proibição, porque há a destruição. Cara, se quer colocar fogo no pneu e tal, mas chegar em loja determinado de entrar e roubar tudo, isso é o que?!

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Publicado em 15 de novembro de 2013 por em Resistências Estéticas.
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