Das Lutas

Coletivo

A grama do vizinho é sempre mais… popular!

Rolezaum bolado

Texto por Fernando Monteiro

Essa coisa de academia é mesmo muito controversa. Uma penca de acadêmicos pelo Brasil correu às redes sociais a fim de lamentar a morte de Nelson Mandela, assim como não são poucos os historiadores, filósofos e sociólogos que enxergam com aquele belo olhar crítico – e de preferência distanciado – as revoltas populares como a Revolta da Vacina, por exemplo. Apressam-se para dizer que foram fruto da imensa pressão exercida pelas contradições sociais existentes na sociedade brasileira, e acusam as medidas autoritárias da classe governante. Escrevem páginas e páginas sobre a romântica luta das classes populares versus as nefastas elites endinheiradas e opressoras. Fazem análises gigantescas sobre a condição de exclusão social dos negros em tempos passados e atuais. Mas, basta que a realidade encoste no seu cotidiano para que essas mesmas pessoas mostrem a sua cara mais conservadora e até reacionária. Os inocentes rolezinhos e o “rolezaum bolado” estão aí para isso também: para demonstrar a profunda esquizofrenia de que sofrem tantos acadêmicos, incluindo os das esquerdas brasileiras.

O rolezinho mexe com o medo, tudo não passa de uma “ameaça”. Quando temos medo costumamos até projetar coisas que não aconteceram de fato para legitimar o autoritarismo subsequente. Nosso profundo respeito ao rolezinho que aterroriza a sociedade sem quebrar nada, sem machucar ninguém, apenas expondo (na prática) as contradições que existem na sociedade. Podemos ver – e muito bem – policiais pagos pelo Estado com o dinheiro dos impostos de todos, atuando no interior de propriedades privadas para protegê-las de um suposto risco. Suposto, pois não há ocorrência de violência, roubo ou depredação por parte dos integrantes dos rolezinhos. Podemos ver a obtenção de liminares na “justiça” que proíbem a entrada e circulação de pessoas em espaços de convívio coletivo, escancarando o verdadeiro caráter privado e seletivo desses mesmos espaços.

No Brasil, a ação do pobre não precisa ter materialidade para ser acusada de crime, basta que fique exposta sua condição de pobreza, que fique evidente a partir das músicas que se canta, das roupas que se veste ou da imutável cor da sua pele para que sua trajetória pelas ruas, shoppings e estacionamentos de qualquer cidade seja barrada por uma horda feroz de policiais e agentes de segurança. Os rolezinhos muito provavelmente vão continuar, pois o cerceamento do direito à cidade continua em processo de avanço sobre as zonas centrais e periféricas. A classe média se esconde nos shoppings, mas os de baixo querem entrar nessa festa e não estão dispostos a mudar seus hábitos. Cuidado, quando as contradições viram antagonismo, as coisas costumam ficar bem quentes. Qualquer bom acadêmico sabe disso. 

Saudações Libertárias.

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6 comentários em “A grama do vizinho é sempre mais… popular!

  1. AntimidiaBlog
    13 de janeiro de 2014

    Republicou isso em reblogador.

  2. Rafael
    14 de janeiro de 2014

    “No Brasil, a ação do pobre não precisa ter materialidade para ser acusada de crime, basta que fique exposta sua condição de pobreza, que fique evidente a partir das músicas que se canta, das roupas que se veste ou da imutável cor da sua pele”

    Roupas que veste?
    de uma olhada quanto custa o uniforme de funk ostentação dessa molecada, tem oculos de 5 mil reais, tenis de 3 mil, e por ae vai, eu não acho que isso seja roupa de pobre.

    • fernandodmonteiro
      22 de janeiro de 2014

      Claro, afinal pobre tem que usar roupa de pobre e ocupar o espaço que a hierarquia social determina para o pobre. Não é?

  3. Corintiano Voador
    14 de janeiro de 2014

    É. Talvez o problema seja que os “rolezeiros” sejam tridimensionais demais. Só se é magnânimo com o bidimensional, o estático.

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Publicado em 13 de janeiro de 2014 por em Territórios Rebeldes.
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