Das Lutas

Coletivo

Às vezes dá vontade de jogar a toalha

negro olhar

Por Luis Carlos de Alencar/ Foto: Adenor Gondim

Às vezes dá vontade de jogar a toalha. Virar as costas e ir embora. Começar tudo de novo, bem longe daqui. País de merda, sociedade escrota, classe média canalha.

São quase 20 mortos nas manifestações, desde Junho do ano passado. As pessoas se fazem de despercebidas? Se esqueceram? Não, claro que não. Elas sabem. Sempre souberam. É repugnante a complacência dessas pessoas com uma PM assassina, com o absurdo faccioso da cobertura da mídia corporativa e com um governo – em todas as esferas – que se recusa a dialogar, sequer ouvir as demandas de um dos mais importantes períodos de mobilizações populares da história desse país – em quantidade de pessoas envolvidas, em inventividade na ação e em duração!

E as pessoas estão lutando pelo que? Pelas mesmas pautas historicamente jamais atendidas pelo Estado brasileiro: Transporte, Saúde, Educação, Moradia, Democracia, Segurança. Quem é contra essa luta? A quem interessa fazer da morte do jornalista um incrível e inacreditável argumento contra manifestantes que desde Junho do ano passado se recusam a ficar na zona do sofá, ou ainda os que estão descendo o morro para botar sua pele à prêmio? (Não estou me referindo à mídia corporativa, dessa não esperava nada diferente; falo de uma parcela das pessoas que está acompanhando essa joça de mobilizações há meses).

Não à toa é a mesma classe de gente que está apoiando os justiçamentos na cidade. Essa escória da humanidade que se escora nos seus medos e nos seus privilégios, que quer uma PM assassina eficiente, que quer uma mídia representando seu mundo de estupidez, desespero e terror! Que quer um governo que desça o porrete nessa plebe ignara que ousa questionar seus brioches fermentados na violência policial, na especulação dos seus imóveis, no estado normal e confortável das coisas, dos quais só é permitido falar mal na roda de chopinho no final de semana, ali em um quiosque qualquer na praia de Copacabana ou nos animados e vitaminados botecos da Vieira Souto.

Resultado: há mais dois mortos que nos olham. O legado da já imortalizada batalha da Central são eles. Mas a eles não foi concedido seu descanso. Ao contrário.

Todos os dias estão abatendo Santiago, como um boi. Esquartejando-o e dos seus quartos fazem oferendas aos Deuses do engodo, despacham-nas pelas várias telas que disputam nossos olhos: TV, cinema, jornais…Exibem um pedaço dele com a piedade que essa falange de cínicos jamais teve por quaisquer jornalistas, expostos a toda sorte de bombas e balas na cidade mais fascista da América do Sul. Por que a Bandeirantes não explicou em sua nota o que fazia um profissional sem proteção devida para zonas de conflitos? TODA A MÍDIA ATIVISTA USA CAPACETE, POR QUE PROFISSIONAIS NÃO?

Santiago nos olha.

Há um outro cadáver também sendo trucidado todos os dias. A carniceria, porém, se dá de outra forma: esquecendo-o. Os pedaços invisíveis de sua perna descarnada são enganchados no vazio das narrativas, na opacidade da sua história. O senhor Tasnan Accioly foi atropelado por um ônibus na Central do Brasil, ao fugir das bombas e do horror instaurado. Morreu na mesa de cirurgia e não está contabilizado pela Secretaria de Saúde como óbito decorrente da repressão às manifestações. Taslan (um camelô, disseram) é a prova morta do quão o horror da repressão nos aflige – sejam manifestantes de máscara, ou os de rosto aberto que insistem em manifestar a sua sobrevivência. No final e para a PM, ambos são quase a mesma coisa. Corpos.

Taslan nos olha.

Dá vontade de jogar a toalha, né?! Virar as costas e ir embora. Mas somente quem pode ignorar os mortos que nos olham é que se dá esse direito. Somente os que acham que estão SOZINHOS nessa Aventura poética de buscar a Beleza na vida é que podem se esquivar do olhar dos mortos.

Estes, encarando-nos, também e ainda buscam a Beleza. E ela está viva na necessidade de se fazer Justiça. Os mortos são a nossa reserva inesgotável de esperança, porque esperam a realização dessa Justiça. E como eles, muitos mais nos fazem companhia.

Toda a solidariedade do Coletivo Das Lutas à família dos mortos e aos bravos manifestantes que não tem medo de olhar nos olhos.

Sigamos, companheiros e companheira, porque se fosse fácil, faríamos uma revolução por dia.

PS. E MANTENHAM-SE LONGE DAS DELEGACIAS E JAMAIS DEEM ENTREVISTAS EM FRENTE A UMA CÂMERA DA TV GLOBO, PORRA.

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8 comentários em “Às vezes dá vontade de jogar a toalha

  1. Leitão
    11 de fevereiro de 2014

    Parabéns pelo texto!

    E, frisando a todos:
    E MANTENHAM-SE LONGE DAS DELEGACIAS E JAMAIS DEEM ENTREVISTAS EM FRENTE A UMA CÂMERA DA TV GLOBO, PORRA.

  2. Adenor Gondim
    11 de fevereiro de 2014

    Esta foto é By Adenor Gondim

    • lcfdaf
      12 de fevereiro de 2014

      Caro Adenor,
      a autoria já foi creditada. Aproveito para dizer que encontrei essa foto sem nenhuma referência pela net, mas que se soubesse ser sua, teria assim aludido, com enorme satisfação. Sou fã do seu trabalho e tive a oportunidade de te entrevistar no Ceará, como assistente de Silvio Tendler, para a série Caçadores da Alma. Forte abraço!

  3. Sebastian
    12 de fevereiro de 2014

    Tem algum dado esatos ou oficiais sobre as mortes durante os protestos?

    • lcfdaf
      13 de fevereiro de 2014

      Oi, Sebastian, na internet tem vários sites publicando os mortos e feridos desde Junho. CMI, Anonymous e a UNISINOS, por exemplo. Abraço

  4. Bruno
    12 de fevereiro de 2014

    A culpa é do Santiago, que não usou o capacete…

  5. Gastão
    13 de fevereiro de 2014

    Enquanto isso, o $talinácio passeia leve, livre e solto, sem nunca ter ouvido, visto ou sabido de nada. Brasil, eternamente colônia.

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