Das Lutas

Coletivo

A exceção que atravessa os tempos

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Por Henrique Glück (integrante Das Lutas)

No Brasil a ditadura acabou formalmente em 1985, mas farda ainda é a lei, a raça ainda é o alvo, o valor da moeda vale mais que a vida e tudo que se planta dá, dá pra saquear, dá pra destruir e envenenar, é só pagar e pode ser por mês, em suaves prestações que cabem no seu bolso de pequeno consumidor. São 514 anos de resistência indígena, séculos de quilombos, resistência e lutas do povo negro e outros povos que nos compõem, mas tem a existência negada sistematicamente por esse projeto de nação. E ainda somos colônia de nações imperialistas. Brancos, privilegiados, quantas vezes lutaram as lutas que nos cercam para construir uma sociedade mais justa, livre e igualitária? Todos que se acomodam nas redes de privilégio sem crítica ou ação direta contra o saque de nossas terras, o genocídio, a exploração do trabalho para a geração de lucro que alimenta apenas os parasitas do sistema financeiro e as grandes corporações globais, sem que essa riqueza seja compartilhada. Somos todos responsáveis, dividimos e dividiremos essa conta, enquanto caímos na competição desmedida fomentada pelo sistema capitalista, esse sistema de exploração da vida. O planeta é constantemente ameaçado por catástrofes que são tragédias anunciadas, mas a necessidade de competição nos mercados faz com que as nações e suas indústrias da morte coloquem toda a vida do planeta em risco. Em Wall Street grandes painéis processam informações que mudam a cada segundo, é um jogo arriscado, uma roleta onde o que é apostado é vida em escala global. Mas nesse país do sul das Américas que tem dimensões continentais, o capitalismo se conecta a outras temporalidades, são os velhos oligarcas com seu poder baseado na terra e na autoridade inquestionável de abrangência regional, que ainda tomam e saqueiam territórios indígenas, como os antigos bandeirantes o fizeram no interior do país em nossa história sangrenta. É também o racismo do tempo da escravidão e a violenta perseguição aos negros pelos capitães do mato, hoje mais bem equipados, com o velho discurso da pacificação e do controle territorial, de arma mais letal e menos letal. E como não deixaria de ser, esses velhos poderes ainda são preservados e exercem seu domínio, aliados aos mesmos mecanismos ultramodernos e sofisticados da atualidade. É a ação do capitão do mato, no campo e nas comunidades militarizadas pela ocupação do Estado, que faz as ações do empreiteiro subirem no telão da bolsa de valores. A pobreza perseguida tem cor, tem raça e é criminalizada no “país de todos” até hoje. São as novas usinas hidroelétricas, feitas na marra com força militar contra os povos locais, e o aumento das terras cultiváveis para o agronegócio em territórios indígenas e áreas de preservação ambiental, que vão tirar o país das avaliações negativas das agências de risco econômico. São as comunidades removidas das áreas mais nobres da cidade que vão fomentar o mercado imobiliário ou “tornar a cidade mais limpa’, como já foi dito pelos velhos higienistas e repetido hoje pelos arquitetos das cidades globalizadas. As múltiplas temporalidades marcadas por velhas e novas formas de poder são nossas indisfarçáveis diferenças, nossas marcas e memórias coletivas que não nos deixam esquecer, pois ainda doem. Aqui o neoliberalismo triunfou ao lado de antigos e podres poderes que persistiram em sua dominação e estendem suas raízes aos tempos atuais.

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O Brasil é a terra do autoritarismo vil de sempre, do patriarcado, do coronelismo, mas ganha umamáscara pós-moderna e ares de aldeia global. Nas capitais um Brasil afinado com a política de controle internacional e no campo o velho cabresto dos coronéis, poderes que são alavancados por safras recordes e fomento da agricultura de alta produção, em escala industrial globalizada. O veneno é servido à mesa dos habitantes das grandes cidades. Enquanto isso, no campo, a miséria de sempre se choca com brilho sertanejo dos magnatas do agronegócio de discurso neoliberal moderninho misturado ao conservadorismo autoritário de sempre. Eis o país que vai se tornando uma aberração política social, um monstro de recortes do que há de pior acumulado na história, se move lenta e canhestramente na direção do futuro, cada vez mais lamentável para a nossa sociedade.  A cartilha global parece bem adaptada ao nosso grotesco passado tirânico do imperialismo às ditaduras. Hoje o Estado de exceção não precisa mais dos ridículos tiranos de nossa memória. A opressão vem do discurso econômico e dos tecnocratas que naturalizam as desigualdades sociais e fomentam a competição para, da equação final, extrair e tornar toda a riqueza produzida em dados no sistema financeiro. Transforma assim a vida em fluxo para o capital e dívida, nos roubando bem diante de nossos olhos nossa capacidade de agir livre e coletivamente, além de sequestrar nossa autodeterminação política. Tudo isso feito em um passe de mágica, um espetáculo de ilusão que nos distrai com desinformação. Enquanto isso, as leis de exceção, as já aprovadas e as que estão por vir, nos colocam numa difícil situação, um possível sufocamento das lutas que fazem a democracia avançar pode fazer de nossa obsessão por segurança uma entrega à total servidão voluntária. Não temos de fato nossa livre escolha, teremos que lutar por isso. Mas não aconteceria sem resistência. Nos EUAs foram precisos mais de 3.000 mortos e um grande espetáculo pirotécnico para que uma nova forma de governar de maneira mais dura  e autoritária fosse implantada. Aqui bastou um rojão e um jornalista morto para que a ilusão democrática começasse a cair. O novo estágio do capitalismo pode prescindir das liberdades e direitos democráticos, coletivos ou individuais. Tornou-se muito mais producente operar em um sistema autoritário, como na China, que vem servindo de exemplo e novo paradigma econômico internacional. O perigo da exceção é real, nos resta saber o que fazer e para onde queremos ir diante disso.

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Apertem os cintos, pois haverá muita turbulência nesse voo e muita instabilidade, afinal, é na instabilidade que se apoiam as medidas de controle que militarizam a vida para extrair dela, de forma estratégica, a mais-valia, o lucro e a produção de sua força em cifras. Tudo se torna uma questão de gestão estratégica do controle social e da vida pelo capital. Mas a vida não se rende ao controle e é na criatividade que devemos acreditar que podemos mudar o jogo, nos recusando a jogar, politizando essa recusa e propondo como a ação direta prescindirmos da mediação da representação e agirmos para que a atividade política não seja substituída pelo poder econômico. As redes e as ruas expressam a sua pauta e não há como negar que o desejo que se expressa nos espaços públicos é de participar e agir diretamente como sujeitos políticos. A democracia real e direta está implícita em todos esses movimentos que pipocam e se desenvolvem em focos espalhados pelo mundo inteiro, só não consegue ler isso o analfabeto político e o falante de uma língua morta, que não consegue traduzir ou cambiar novos signos. É preciso cortar as raízes agora, o tronco não se sustenta sem elas, a velha árvore já está podre, enquanto outra planta cresce verdejando a planície de forma horizontal.  Uma outra linguagem, outros afetos e novas formas de perceber o mundo nascerão da multidão e dos encontros e conflitos que ela comporta e resignifica. Não abortem o futuro que desejam, por mais doloroso que seja parir uma metamorfose política para os corpos livres, para um mundo livre, mais horizontal em suas relações políticas. A liberdade nunca foi concedida, sempre foi conquistada por aqueles que ousaram e lutaram por ela. Não temam o amanhã, por que hoje e sempre estaremos nas ruas e cantaremos juntos até que esse canto nos leve além desse muro, por mais que tentem nos criminalizar e nos conter. Avante, companheiros, que a luta continua! Todos temos ligações com as ruas!

Brazil Confed Cup Protests

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