Das Lutas

Coletivo

A quarta guerra mundial

Zapatistas

por Gustavo Motta

Em um livro de autoria do sub comandante Marcos do EZLN[1], o expoente porta voz da organização analisa o momento contemporâneo como uma guerra mundial. Para o autor, a terceira guerra foi a guerra fria. Embora sem confrontos diretos, esta atingiu e influenciou a geopolítica global durante todo um período histórico.

No mundo contemporâneo pós guerra fria, o capitalismo vitorioso se espalhou pelo mundo tornando-se hegemônico, travando seus conflitos dentro dos estados-nação contra os povos que ali se encontram, especialmente aqueles que não possuem o estilo de vida ligado ao consumo de produtos comercializáveis e se nega a vender sua força de trabalho e patrimônio natural à exploração de mais valia.

Para a EZLN, este momento é a quarta guerra mundial, conflito travado entre os donos do poder e capital contra os povos de praticamente todo o mundo. Esse conflito tem como características a guerra irregular de baixa intensidade. Onde os pobres são o principal alvo do controle de estado e capital.

A guerra assimétrica contemporânea decorre não de conflitos armados de tipo guerrilha para assumir o controle do estado, e sim de batalhas travadas em torno de direitos sociais que estão sendo sistematicamente subtraídos pelas políticas neoliberais, de forma que a pressão do grande capital sobre os estados conduz suas verbas para pagamento de dividas infinitas com o Fundo Monetário Internacional, banco mundial e banco interamericano de desenvolvimento.

As batalhas contra o capital são nítidas em manifestações de rua duramente reprimidas pelos governos locais, que usam tecnologias menos letais de se fazer guerras, como bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral, balas de borracha, sprays de pimenta, choques elétricos, entre outros. O palco para esses conflitos são em especial as grandes cidades, onde a luta pelo direito à cidade tomou contornos mais aviltantes na ultima década.

A baixa letalidade é uma fórmula contemporânea para evitar catástrofes humanitárias, mas principalmente para a manutenção de uma economia ligada aos conflitos e à reprodução contínua do capital, em que as cidades não tenham seus fluxos afetados e governos não sejam tão expostos a questionamentos sobre banhos de sangue típicos das guerras convencionais. Os efeitos adversos associados também são contornados nesse cenário. Assim não existem, por exemplo, grandes migrações como as de países com guerra civil explícita.

Contudo, no campo e longe das câmeras de foto e vídeo que transmitem para o mundo a brutalidade do estado, os conflitos da quarta guerra mundial se tornam mais letais, e os governos toleram a atuação de grupos paramilitares especializados em abrir frentes de expansão do agronegócio, que neste momento se direciona em especial para reservas indígenas e terras de negros quilombolas – comunidades tradicionais que souberam conservar a natureza durante séculos e em alguns casos milênios. A terra preservada não tem valor para o capital, para sua produção, somente é valida a devastação para plantio de variedades vegetais exóticas ao ambiente e com valor comercial.

O endurecimento desses conflitos é parte de uma trajetória de controle da economia sobre a política, onde representantes eleitos por votos de urnas questionáveis[2] operam como funcionários de multinacionais e de grandes lobbies de capital. Exercendo relações de poder nefastas que seguem uma ética incompatível com o bem coletivo da sociedade, suas ações são passíveis de eternas investigações que em nada resultam, tornando a classe política intocável e impune de seus crimes.

Nesse cenário conturbado, boa parte das revoltas se direciona para o sistema político por entender a limitação da democracia representativa. A classe política funciona de forma distante e separada do povo. O sistema de voto de quatro em quatro anos, e em alguns países de cinco em cinco anos, se mostra esgotado e com nítidos sinais de crise. Contra a caducidade da democracia representativa, cidadãos de todo mundo se unem através de redes sociais e em praças abertas para debater problemas e soluções reais que estejam em seus cotidianos.

Tais condicionantes não raro ocasionam levantes populares massivos em vários países como Brasil, Tailândia, Egito, Tunísia, Grécia, Turquia, Barein entre outros. Com um diferencial histórico substancial: o uso da internet, sobretudo das redes sociais como Facebook e Twitter. A dinâmica das redes sociais que transcendem o controle dos estados, teve um crescente uso político impulsionando movimentos de resistência.

Característica fundamental da atual era da informação, a mídia se torna uma arena peculiar para análise, pois até pouco tempo, o monopólio da informação permitia que as mazelas sociais ocasionadas pelos governos fossem facilmente escamoteadas por noticiários esportivos ou sexistas com a despolitização de seus conteúdos. A grande mídia era a voz da verdade universal e não era questionada pela maioria das populações.

Ainda que tímida, a expansão da internet possibilitou a geração de conteúdos que se opõem à mídia dominante, informando que a verdade não é mais um monopólio. O simples fato de mídias poderem veicular conteúdos sem a dependência de capitais proporcionou uma profusão de informações que por vezes esclarecem e em outros casos desmentem e denunciam o discurso oficial, sempre vital para a manutenção da ordem estabelecida.

Torna-se cada vez mais evidente que o consenso fabricado de jornalistas contratados pelos grandes conglomerados de informação é manipulação política. Daí a ruptura de estigmas criados ao longo de décadas sobre os movimentos sociais e as pessoas que deles fazem parte. Agora é possível que os movimentos e seus ativistas possuam voz e elaborem seus discursos através de ferramentas de internet. O jogo da informação e sua contra informação é fundamental nos conflitos entre cidadãos e gerentes do grande capital.

Embora todo esse contexto seja preocupante, a importância de pensar o futuro e o mundo que queremos é de igual ou maior relevância para que as utopias não sejam mortas e o conflito social se torne algo em si e não uma etapa para uma finalidade. Afinal não é apenas pelo conflito e enfrentamento de forças de opressão que o mundo será transformado em um lugar mais saudável, prospero e desenvolvido para a liberdade daqueles e aquelas que habitam o mundo.

Observando o projeto de sociedade que pretendemos com nossas ações e com a negação de ações que nos são impostas, buscamos desenvolver um tema que trata não apenas da utopia de um futuro desejável, mas também de atitudes para o presente que mudam profundamente nossos hábitos e geram resistência significativas contra a opressão social que nos vitima a todas e todos. Essa utopia passa pelo debate da cidade que, para o geógrafo americano David Harvey, é o espaço fundamental da cidadania e da construção de um mundo melhor e mais justo. (HARVEY, P.28, 2013)

A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoa que desejamos nos tornar. Sustento que a liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e as nossas cidades dessa maneira é um dos mais preciosos de todos os direitos humanos.

[1] Exército Zapatista de Libertação Nacional. Chiapas. México

[2] Como o caso das urnas eletrônicas Brasileiras supostamente fraudáveis em meios digitais.

HARVEY, David. A liberdade da cidade in MARICATO, Ermínia et al. Cidades rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013.

MARCOS, Subcomandante Insurgente. Nem o centro e nem a periferia – Sobre cores, calendários e geografias. Erahsto Felício e Alex Hilsenbeck, organização. Coletivo Protopia S.A. e Danilo Ornelas Ribeiro, tradução. Porto Alegre: Deriva, 2008.

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Informação

Publicado em 25 de fevereiro de 2014 por em Porrada!, Territórios Rebeldes.
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