Das Lutas

Coletivo

#EuNãoMereçoSerEstuprada #NinguémMerece!

Minha participação modesta no protesto

Minha participação modesta no protesto

Este é um texto muito particular. Apesar de ser uma luta do Das Lutas, esse é um texto que eu, Mariana, precisava escrever. Estou escrevendo numa mesa de restaurante, após um almoço sozinha, pensativa. Só vou conseguir postar à noite, mas precisa ser escrito.

Ontem foi realizado um protesto virtual contra o resultado de uma pesquisa do IPEA que revela que 65% das pessoas entrevistadas acreditam total ou parcialmente que mulheres que se vestem com roupas curtas merecem ser atacadas. MULHERES. MERECEM. SER. ATACADAS.

Diante desse panorama, a jornalista Nana Queiroz criou o evento de protesto virtual solicitando que mulheres tirassem fotografias segurando cartazes com as hastags #nãomereçoserestuprada e #ninguémmerece. Podiam ser fotos simples, ou nus elaborados, desde que passassem a mensagem que nenhuma mulher merece ser estuprada, não importa sua vestimenta ou não-vestimenta.

Pois bem, o evento foi invadido por perfis fakes, ou de meninos novos, que faziam ameaças, xingavam, humilhavam as mulheres em suas postagens e fotografias. “Você merece ser estuprada sim, vadia”, “você nunca vai ser estuprada com essa cara de resto de aborto”, “se te encontro na rua te estupro até minhas bolas saírem pela sua boca”, “Feminazi feia, nunca vai merecer, mas se for estuprada, agradeça ao estuprador”. Essas foram algumas frases que li dirigidas às manifestantes.

Feia, velha, escrota, feminazi, vadia, puta, ridícula, gostosa, fodona, peitão, chupeteira, mulherzinha, estúpida, incapaz, galinha, vaca, fodedora, peito caído, patética, vagabunda, piranha, esses foram alguns do “adjetivos” usados para ofender participantes do protesto.

Em um espaço em que mulheres lutavam contra o resultado perverso da pesquisa, esse resultado se apresentou ali, na cara de todas, de maneira alarmante, apavorante, revoltante. Era a primeira vez que muitas mulheres finalmente falavam de abusos que sofreram, de estupros que viveram. Eu mesma compartilhei com várias minhas histórias de abusos, estupros e violência. Mas eu já aceitei que a culpa não é minha e superei meus agressores. Muitas daquelas mulheres, jovens, estavam confrontando seus medos pela primeira vez. E foram duramente violadas, novamente. E novamente. A criadora do evento foi ameçada de estupro e postou sobre isso no Blog do Sakamoto.

Eles fazem com que nós, as vítimas, sejamos culpadas pela violência que vivemos. Num depoimento muito pessoal, conto a vocês que perdi minha virgindade num estupro. E meu estuprador dizia: “mas você veio aqui, você queria”, “você não disse não”, “você chorou, achei que estava emocionada”. E durante muitos anos eu acreditei nisso. Ele, um homem bem mais velho, conseguiu me convecer que a culpa era minha. Só depois que conversei sobre isso com amigos, e em terapia, que percebi que ele era um monstro. Um violador, um criminoso. E fiz as pazes comigo. Me perdoei e respeitei.

Fomos acusadas de querer privilégios. Que privilégios? O “privilégio” de andar na rua com a roupa que quisermos e não sermos estupradas? O “privilégio” de existir num espaço público sem ser violadas por olhares, comentários, risadinhas? O “privilégio” de locomoção sem ser abusada dentro do transporte coletivo, sem ser roçada, encoxada, apalpada? O “privilégio” de andar de madrugada e somente ser assaltada, sobrevivendo sem ser violentada brutalmente, ser agredida e espancada? Se essas coisas são “privilégios”, então, queremos sim! Até pouco tempo atrás achava que isso era um direito.

O que me dá alento é ver que as mulheres atacadas não voltaram atrás, não se esconderam, não se acuaram. Quando acordei, eram mais e mais fotos e depoimentos. E mais e mais ofensas, que eram ridicularizadas e rebatidas. E mais e mais fotos, e mais depoimentos. As mulheres não recuaram. E mesmo as que, por algum momento, se sentiram assustadas (o que é perfeitamente normal na situação) e deletaram suas fotos, repostaram, na segurança de estar na luta ao lado de irmãs.

Sim, somos todas irmãs. Sororidade. É o que significa: irmandade entre mulheres. Aliança, parceria, afeto, apoio. Nossas irmãs trans também.

Juntas somos capazes de enfrentar essa sociedade machista, que nos controla, que nos doutrina, que acha que tem direitos sobre nossos corpos, nossas potências, nossos desejos e sonhos.

#MACHISTASNÃOPASSARÃO

#EUNÃOMEREÇOSERESTUPRADA

#NINGUÉMMERECE

 

Abaixo, alguns prints (cedidos gentilmente por Nádia) das ações machistas/masculinistas no evento, pra que todos vejam que isso existe de verdade:

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7 comentários em “#EuNãoMereçoSerEstuprada #NinguémMerece!

  1. Luciane Lemos
    30 de março de 2014

    ÓTimo texto, Mariana.Obrigada por compartilhar sua revolta conosco. Vc não está sozinha, defintitivamente!

  2. Botelho Pinto
    4 de abril de 2014

    Isso é falta de rola. Feministas eh tudo um bando de mal comidas que não tem marido. Vão arrumar uma trouxa de roupa pra lavar, bando de vagabundas. Querem esfregar a buceta na cara dos homens andando peladas na rua mas não querem levar o mandruvá roxo por isso?

  3. Crisalino
    6 de abril de 2014

    Segundo o iPEA, 99% dos brasileiros concordam com histeria feminazi.

  4. MCS
    7 de abril de 2014

    E, é claro, os mascus vieram aqui mostrar que os prints não mentem. Grata pela participação, e por endossar meu argumento central.

  5. Revoltada totalmente
    9 de abril de 2014

    que absurdo sem tamanho… nem to acreditando no que li… como eisso é possivel… eles merecem é serem castrados a maioria deles e uma surra bem dada… filhos da mae… sabem pq a maioria sao mães solteiras pq os ” pais ” se é que eu posso chamar assim foram uns machistas idiotas sem coração… estou completamente revoltada com esses prints… mds

  6. Ana Eufrázio
    18 de abril de 2014

    Adorei o artigo, muito muito bom mesmo. Inveja branca. Adoraria tê-lo escrtio. Parabéns Mariana. Arrazzooooohhh.

    • MCS
      18 de abril de 2014

      Ahhh, você é uma querida!
      Vamos escrever um juntas. 🙂

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Publicado às 29 de março de 2014 por em Para seguir lutando, Porrada! e marcado , , .
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