Das Lutas

Coletivo

CONVOCATÓRIA PARA A II MARCHA CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO

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Hoje, o Coletivo Das Lutas dá início à sua colaboração na campanha de divulgação da 2a Marcha contra o Genocídio do Povo Negro, uma campanha pela vida e contra o genocídio do povo negro,articulada pela Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto e impulsionada pela organização Quilombo Xis-Ação Cultural Comunitária.

O Das Lutas soma-se aos esforços das organizações comunitárias que há décadas resistem e se engajam na auto-organização do povo negro em sua luta que se inicia no processo de diáspora africana, por resistência, sobrevivência ao genocídio e libertação da hegemonia dos brancos

Partimos de três entendimentos básicos:

1) GENOCÍDIO EM CURSO:

Os dados da violência, os índices socioeconômicos, o contexto de desvantagens aos quais o povo negro está submetido no Brasil, realidade desencadeada e imposta pelo racismo, indicam que há um genocídio do povo negro em curso que precisa ser visibilizado e combatido. Esse genocídio implica o reconhecimento da existência de um povo – o negro – e a morte dele em uma territorialidade (Brasil) durante um decurso de tempo (desde a diáspora africana), como política de Estado e de sustentação das relações de exploração e de poder. Evidente que nos Estados contemporâneos vai se tornar mais difícil haver declaradamente alguma medida pela eliminação de algum povo, mas nos pressupostos, na seletividade e na efetividade do funcionamento do seu sistema penal, na criminalização do território, do modo de agir e de ser do povo negro é que se dará a necropolítica. O abate do povo negro não se verifica somente pela modalidade do extermínio – sua face mais sanguinária, mas também no impedimento do acesso do povo negro à Saúde, Justiça, Moradia, Educação, na deslegitimação da sua História, nas desqualificações, nos desrespeitos e na desumanização das mulheres negras, na superexploração das forças produtivas do povo negro, na expropriação de suas expressividades religiosas, culturais e artísticas com o concomitante afastamento ou apagamento de seu protagonismo; na reiterada destruição das experiências comunitárias e auto-organizadas do povo negro durante toda a narrativa de nação brasileira. No não reconhecimento da sua existência.

2) CENTRALIDADE DO RACISMO:

Qualquer ação de transformação social precisa considerar a centralidade do racismo na manutenção e atualização dos mecanismos de opressão e privilégio social. Para traçar proposições de mudança é preciso identificar a dinâmica concreta da opressão – é preciso reconhecer seus mecanismos de seletividade social. O racismo como um todo é um dos dispositivos centrais na manutenção da desigualdade social, e não apenas um dado extra da especificidade brasileira.

Reconhecer que há uma dimensão comum de domínio a todos os pobres – negros, indígenas, brancos etc. – é fundamental para que lutemos todos lado a lado por nossa autonomia social efetiva. Mas se isso servir para invisibilizar as diferenças materiais de condições e acesso existentes entre os diferentes segmentos de pobres, colocaremos tudo a perder. Esse é o grande dilema da luta de classes: para compor uma luta comum – portanto horizontal – é preciso partir do reconhecimento de que a opressão social é racialmente estratificada. Ignorar isso é colocar a perder toda possibilidade de emancipação coletiva, tentando impor à luta uma visão viciada – e RACISTA – de mundo, onde a luta racial estaria subsumida em uma luta de classes mais geral. Embora este texto se concentre na questão racial, é importante lembrar que essa estratificação, e portanto esse dilema, também funciona para povos indígenas, gêneros e sexualidade. As lutas se cruzam e devem ser simultâneas, mas é preciso lembrar que as lutas minoritárias têm suas singularidades, seus fatos e historicidade próprios que precisam de análise e estratégias próprias, nada intercambiáveis com a imagem idealizada de uma luta social supostamente mais ampla. Mais ampla de fato deve ser a articulação cooperação entre as lutas singulares para compor uma luta comum. Em vez de uma luta majoritária que se imagine contendo as demais lutas, uma luta comum é uma cooperação horizontal entre lutas singulares. Certamente, isso exige uma atividade contínua de auto-organização, mas esse é o compromisso de toda luta coletiva.

3) O PAPEL DO BRANCO E DOS NÃO NEGROS:

A mestiçagem na sociedade brasileira não nega a dinâmica do racismo. Ao contrário: ela constrói uma modalidade de racismo típica em que quanto mais negras forem as características bioculturais de uma pessoa, menos acesso terá a Direitos; quanto mais brancas se constituírem essas mesmas características, mais acesso a privilégios haverá. Ao se falar de racismo no Brasil, muito se aborda a partir do povo negro e das condições que o racismo o aflige; pouco ou nada reflete sobre o povo branco e os privilégios que o asseguram. O racismo e os privilégios dele decorrentes apontam o povo branco como favorecido e, portanto, inserido e dotado de responsabilidade pelo contexto de disparidade racial da sociedade brasileira. Se a luta antirracista tem por protagonista o povo negro, cabe aos não negros perceberem qual será a sua posição: ignorar-se como privilegiados, tendo esse privilégio como mantenedor de sua existência, ou colocar-se em cheque – e a sociedade na qual está inserido também -, assumindo-se na condição de aliado na luta antirracista.

A partir dessas considerações, o Coletivo Das Lutas, formado até a realização desse texto por não negros, posiciona-se na luta antirracista: porque concorda com a existência de um genocídio contra o povo negro exercido pelo Estado brasileiro desde a sua formação e mantido, desenvolvido e atualizado no decorrer dos processos históricos, sobretudo pela atuação do seu sistema penal; porque entende que qualquer ruptura com a ordem socioeconomica tem que considerar as relações raciais como eixo estruturante e estrutural; e, por fim, como aliado das organizações do povo negro, explicitamente com a Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto e com a Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária. A realização dessa aliança NÃO se dá com o conhecimento definitivo e a percepção segura do papel que devemos ter na construção da nossa atuação nesse processo da 2a Marcha contra o Genocídio do Povo Negro; diferente disso, a nossa atuação como aliado é sobretudo uma predisposição em nos colocar criticamente contra nossos privilégios na nossa própria formação enquanto indivíduos e coletivo de ação política e de comunicação e perceber, dia após dia, como pode ser desenvolvida essa aliança, respeitando o protagonismo do povo negro.

Convidamos todas e todos para que participem da construção da 2a Marcha contra o Genocídio do Povo Negro e conheçam seus organizadores nos links elencados abaixo:

A 2a Marcha contra o Genocídio do Povo Negro, uma campanha pela vida e contra o genocídio do povo negro, articulada pela Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, ocorrerá no dia 22 de Agosto – no Brasil inteiro.

 

#2marchacontragenocidiopovonegro

#quilomboxis

#campanhareaja

 

evento: https://www.facebook.com/events/228503680633212/?fref=ts

blog: http://reajanasruas.blogspot.com.br/

perfil: https://www.facebook.com/ReajaOuSeraMortoReajaOuSeraMorta?fref=ts

Um comentário em “CONVOCATÓRIA PARA A II MARCHA CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO

  1. Ana Eufrázio
    1 de maio de 2014

    Esse país tem uma enorme dívida com o povo negro, ao invés de pagá-la marginalizam o povo negro e o encerram nos guetos e cárceres. Embora o negro goze de liberdade há mais de cem anos, boa parte deles continua sem poder frequentar a casa grande, sendo levado ao pelourinho para receber os mesmos castigos e temendo mais seus feitores do que a própria morte. Desde a abolição não houve justiça que os alcançasse, exceto os justiçamentos, (como os que vimos nos últimos meses, onde pretos são amarrados em postes e açoitados) ou o peso do poder de polícia, que converteu o cárcere em senzala. E ainda os negam a possibilidade de serem beneficiados com as cotas raciais. Mas é claro, são brancos lutando pelo direito de continuar açoitando negros e brancos pobres amarrados em pelourinhos.

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