Das Lutas

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Minha experiência com Claudia da Silva Ferreira – Isabela Coutrinho

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O momento era muito duro desde junho, com a explosão das manifestações populares. Muita violência escancarada, muitas prisões em todos os lugares e a certeza de que essa potência destruidora incidia de forma diferente e penosa sobre negros e pobres continuava. A sensação era de golpes sequenciais que retiravam nosso tempo de respirar: o episódio em que um jovem negro e pobre foi amarrado a um poste no Aterro do Flamengo, relatos de prisões de jovens negros “por engano”, o desespero sem fim das remoções de moradias em função dos megaeventos no Rio…

O carnaval chegou e a greve dos garis apareceu como o respiro que precisávamos! De onde não se esperava e quando não se esperava a resistência ganhou força. Eu acompanhava tudo de Recife, com o coração um pouco mais alegre.
No meu retorno ao Rio, a animação e a força imperavam pelo meu encontro com toda negritude do maracatu e também pelas notícias que vinham do Rio. No facebook, entrei num bate-papo de amigos apenas para dar boa noite e descansar, pois voltaria ao trabalho no dia seguinte. Senti ares de indignação na conversa, foi quando soube que algo muito grave havia acontecido. Por algum senso de proteção, meus amigos disseram pra que eu tentasse me inteirar somente no dia seguinte, senão correria o risco de não conseguir dormir. Mudaram de assunto, eu fui dormir e, no dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi, então, me inteirar do que tinha acontecido: o assassinato de Claudia da Silva Ferreira.

No momento em que eu soube do seu assassinato, da forma como seu cadáver foi tratado e de como a mídia estava tratando o caso, fui tomada por tristeza e indignação abissais. A carga emocional daquele momento ultrapassou a identificação. Não olhei pra Claudia “como se” fosse alguma amiga ou familiar minha. Naquela ocasião, senti minha carne arrastada, senti a morte da minha irmã Claudia. É muito comum em episódios como esses, falas do tipo:
– Poderia ser tua mãe!
Ou
– Poderia ser você!
Mas o que senti foi diferente. Eu nunca havia sentido uma irmanação tão forte com uma pessoa que nunca vi!
Claudia não poderia ser minha irmã. Claudia é minha irmã!

Naqueles minutos, procurei incessantemente uma foto de Claudia onde ela sorrisse, onde eu pudesse ver um pouco mais de sua humanidade e não apenas aquele tom grave da foto 3×4 da sua “identidade”. Eu achei que vê-la sorrindo amenizaria um pouco a dor daquele momento. Não encontrei o que queria. Fiquei com a foto 3×4. Coloquei a imagem como meu avatar no facebook. Senti vontade de ir ao enterro dela, abraçar seus filhos/sobrinhos, seu marido, mas fiquei em casa. Três dias sem dormir se seguiram. Mais vinte e cinco dias à frente e a foto de Claudia continuava lá. Foi quando coisas muito “estranhas” começaram a acontecer… E é desse estranhamento que eu quero falar.

No dia 27 de março, uma amiga querida foi bem direta me perguntando quando eu mudaria minha foto no facebook. Quando questionei sua colocação, ela disse que minha foto era mais bonita que a de Claudia. Eu, realmente, fiquei muito chocada, porque se tratava de uma mulher negra, historiadora e que tem como tema de pesquisa o período escravista no Brasil. Eu a disse que, pela sua condição, poderia entender o porquê de eu ostentar aquela foto e que a trocaria no dia do orgulho gay pela foto de uma drag queen muito linda e bem montada. Isso concluiria a trilogia dos excluídos, já que durante o carnaval usei a foto de uma gari nordestina.
O dia do orgulho gay chegou e eu não troquei minha foto.
O mês avançou e outro amigo dispara:
– Na boa, já deu a cara dessa senhôra aê…
Eu gargalhei e não disse nada! Sorri o sorriso que não vi de Claudia.
Ao longo dos dias, mais duas pessoas me abordaram com a mesma pergunta e comecei a perceber que não era coincidência! Algumas outras – umas duas ou três – perguntaram, curiosas, quem era aquela moça, embora minha foto tivesse a seguinte legenda: “claudia da silva ferreira, mais uma assassinada pelo terrorismo de estado.”

Diante disso tudo, comecei a pensar que eu tenho facebook desde 2008 e ninguém nunca veio me perguntar quando eu trocaria a foto do meu perfil! O que naquela imagem despertava tanto incômodo ou curiosidade?
Mas não pararia por aí! Em um não tão belo dia, me conecto à rede social e aparece uma mensagem do programa, bem em cima da foto, para que eu troque a imagem do meu perfil. Novamente, achei aquilo muito “estranho” e gostaria de acreditar que isso aconteceu por conta de alguma atualização do aplicativo ou mesmo porque eu estava há muito tempo com a mesma foto. Se bem que já fiquei mais tempo com outras fotos e nada aconteceu… Muitos dias depois, fui alertada por amigos de que poderia ter acontecido uma denúncia a minha foto, embora eu não tenha recebido nenhuma notificação nesses termos.

Ainda mantive a foto por uns dias, mesmo com a tarja do facebook dizendo para eu modificá-la. Num dia desses, por minha LIVRE e espontânea vontade, troquei a foto de Claudia por uma foto minha, na qual eu apareço maquiada e de turbante. Simplesmente, a minha publicação mais curtida de todos os tempos! Isso mesmo, desde 2008! E, realmente, eu não sou uma pessoa que faz poucas publicações! E estas são de todos os tipos e temáticas possíveis.

Então, sobre meus estranhamentos, não quero teorizar ou forçar conexões, mas nesses episódios percebo pelo menos três coisas: 1) nossa dificuldade imensa de olhar para o estado de violência que estamos passando, sobretudo os pretos e os “quase pretos de tão pobres”; 2) um jeito de experimentar a rede social como ferramenta de consumo/entretenimento que sufoca a possibilidade de discussões políticas nesse espaço; 3) uma pseudo-aceitação d@ negr@, mas em certos papéis muito específicos (marginal, mulher bonita, serviçal, de sambista, etc.), em que cada papel carrega uma conduta específica (matar o marginal, cortejar a mulher bonita, humilhar o serviçal, consumir a música, etc.).

Eu fiquei um pouco aflita ao escrever este texto, porque não queria expor as pessoas que participaram dessas estórias comigo. Não acho uma boa saída demonizar ou culpabilizar alguém por suas falas, sentimentos e incômodos. Mas resolvi seguir para não individualizar – no pior sentido da palavra – essa minha experiência. Tenho certeza que as pessoas que pediram pra eu trocar a foto não são monstros racistas, mas foram portadores do racismo que nos enfraquece todos os dias. E é contra ele que eu luto e esbravejo. Sustentamos essa estrutura imensurável com nossos racismos. E é contra eles que marcho. Contra essa dinâmica excludente que arrebata a tod@s.

De minha parte, posso dizer que o assassinato de Claudia me enfraqueceu e entristeceu muito nos primeiros dias. Senti e sinto sua morte de uma forma muito dolorosa e indelével. Mas esse fato tão corriqueiro nos bolsões de pobreza brasileiros também me fortaleceu para seguir em frente nos combates que a vida coloca para nós, negros. Sigo, então, com minha sensibilidade, que ninguém há de tirar, e com minha beleza, que há de aparecer não só no facebook.

Texto da psicóloga Isabela Coutrinho em apoio a 2ª Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro, para Reaja ou Será Mort@.

Imagem: 100 vezes Cláudia – Think Olga – Amanda Salamanda

Frente ao Genocídio do Povo Negro, Nenhum Passo Atrás!

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#2marchacontragenocidiopovonegro

#quilomboxis

#campanhareaja

 

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2014 por em 2ª Marcha Contra o genocídio do Povo Negro, Memória das lutas.
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