Das Lutas

Coletivo

Qual é o som de um viaduto que cai?

 

 

Nicholas_Hlobo_'Ndize'_2010

Nicholas Hlobo, ‘Ndize’ (2010).

Por Luis Carlos de Alencar

 

A queda do viaduto é uma metáfora insuperável: a paisagem de um definitivo desarrazoado,

um ajuste de contas entre a razão e aqueles que erigem moedas na alameda do tempo rápido.

 

Com o viaduto, cai a pedra e finda o prazo,

porque não há asas que sustentem a verdade maciça

que esmaga pessoas, versões e fatos.

 

O menor caminho que separa dois pontos é a queda.

Mas o viaduto que cai propõe uma novidade, uma nova lembrança da crueldade: essa inabalável certeza que germina lá em baixo.

 

Da tonelagem sobre carros, espatifada a vidraça, eclodem

ferros retorcidos em feia harmonia.

Estilhaços pelo asfalto, pedaços de sol que contra luz iluminam,

cheiro no queimado, gemidos no concreto.

Orgasmo às avessas que esporra desgraça e um novo feto.

 

Um ser se anuncia (ou será que já existia?).

Esse ser ainda agoniza, espremido, transmutando. Será feito de carne, pedra, ferro, vidro, verdades, asas, viaduto – e virá dali de baixo.

 

O que ele será? Não sei. Será justo, será bravo? Será o meu amor (que é o seu horror)? Não sei. Será um, serão vários? Não sei.

 

Mas quando ele se erguer, isso eu sei, virão outras quedas.

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Publicado às 6 de julho de 2014 por em Para seguir lutando, Resistências Estéticas e marcado , .
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