Das Lutas

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SOBRE ESTAR CERTO E TER RAZÃO

Goya: "O sono da razão produz monstros"

Goya: “O sono da razão produz monstros”

Por Caralâmpio Trillas, Helen Lazaro, Juliana Lira Sampaio e Katia Motta

Em tempos como os atuais, em que o embate de ideias, seja em que campo da organização social for, tem levado à tomada de posições extremadas e reduzido as divergências naturais e saudáveis à oposição visceral, nem sempre ter Razão é estar Certo. Isso porque a atividade política e social exige de nós senso crítico do real, análise do momento em que estamos no processo, da conjuntura, para então se tomar uma atitude mais consequente diante do diagnóstico. Nesse ponto a ideologia auxilia muito para que, valendo-nos de certas premissas, seja possível formular frente ao conjunto dos envolvidos na luta, de forma inteligível, o que se pensa daquilo que está acontecendo no contexto em que estamos inseridos. Assim é preciso comunicar os motivos da discordância, do incômodo, da impaciência diante de determinada circunstância. Se conseguimos tornar evidentes certas contradições, incongruências ou mesmo antagonismos, tanto mais nos aproximamos, em linguagem coloquial, no vulgo, do que chamamos de Razão.

 
Esse primeiro momento é muito importante, pois ele permite identificar não apenas os possíveis aliados e os campos de diálogo, mas também os oponentes, adversários e espaços hostis para desenvolver uma política propositiva. Algo que confira à nossa Razão mais que a condição de singularidade de opinião maturada, mas que seja útil para um posicionamento menos diletante. Algo cuja própria exposição já aponte para um caminho.

 
Todavia, e tal se aplica na maioria dos casos, a validade da Razão na ação política e social é limitada se esta não vem acompanhada, ainda que em esboço, de um projeto. Um que seja suficientemente vigoroso e coerente para, por um lado, encontrar seu nexo na própria Razão e, por outro, valer-se dela para (con)vidar um determinado coletivo à reflexão sobre os possíveis encaminhamentos conjuntos de ações que visem à superação do problema em questão.

 

Assim pensando, e agora falamos em “estar Certo”, é preciso antes de tudo que a Razão, que ampara e pede um projeto, encontre em certas iniciativas a justa medida para, não apenas identificar os problemas, mas antes e, sobretudo, sugerir o debate sobre formas novas de organização e gestão coletiva do que é comum a todos. Estar certo é centrar esforços para encontrar o meio através da qual um quadro novo substitua o antigo, menos pelos vícios deste que pelas virtudes daquele. Algo que seja potente o suficiente para tornar mais evidente a urgência da mudança que o repisamento ressentido do que não deu certo. Um movimento de tal ordem vigoroso e ascendente que as críticas ao modelo vigente não sejam mais que um indício da necessidade de mudança, mas não o seu motivo principal.

Pelo exposto, entendemos que é importante conferir à Razão a dignidade dos indignados, a identidade, o signo da mudança e a propositividade do projeto. Criando a indissociabilidade entre a Razão e o que é Certo, galvanizamos os elos de uma corrente histórica que, ao edificar, necessariamente destrói e que, ao destruir, necessariamente edifica. Como dizia Proudhon: “ordem sem coerção”! Dizemos nós agora que, sem um projeto de classe, o que teremos na verdade são projeções catastróficas para a classe. A exemplo dos profetas do apocalipse, da escatologia religiosa, quem não age tendo claros os meios através dos quais se quer operar a mudança corre sério risco de engrossar as fileiras da demagogia. Assim significados, ter razão e estar certo implicam na análise propositiva que coloca em movimento processos vitais de transformação do real.

 

Texto retirado de: https://www.facebook.com/caralampio.grillas/posts/253932938136154

Autor da Imagem: Goya

3 comentários em “SOBRE ESTAR CERTO E TER RAZÃO

  1. Franklin Carvalho
    19 de julho de 2014

    Um dos desafios para a construção de um “projeto” de classe é ter clareza da diversidade de possibilidades que se apresentam em uma sociedade multicultural, plurietnica. Talvez a busca por uma diversidade de “projetos” um caminho, ou a pactuação de princípios orientadores comuns entre distintos projetos.

  2. lcfdaf
    19 de julho de 2014

    Acho que sua colocação satisfaz as minhas inquietações com o escrito, Franklin. Apesar de acha-lo um texto elucidativo, há dois fatores que me incomodam em seu enunciado:

    1. a necessidade de um projeto – que agora vc sugere que se abra para uma diversidade de projetos ou a pactuação principiológica entre eles, dada a diversidade cultural e étnica de nossa sociedade.

    2. a relação esquemática entre o que seriam fases da proposta do texto: não há projeto que deva ser orientador de uma prática, de uma ação política coletiva, que não deva se presumir reorientado – permanentemente – por ela mesma. Projeto aberto para a sua própria reformulação constante, diante do desenvolvimento das ações e relações entre aqueles a ele vinculado.

    Vou reconvidar os autores para a continuação do debate.

    • Carallâmpio Trillas
      19 de julho de 2014

      É curioso como um texto pode comunicar tantas coisas em simultâneo. Tanto mais curioso é o fato das inquietações relacionadas a ele encontrarem-se na origem e na necessidade de escrevê-lo. No geral o texto é movido por um apelo conjuntural, pretende somar na reflexão e, não menos, encontrar afinidades outras para sensibilidades similares diante de um mesmo processo. Nesse sentido, tem sim a pretensão de aglutinar.
      Acho inclusive que é uma “pretensão modesta”, para a qual nem mesmo podemos reivindicar o estatuto da originalidade. É algo que se vincula a acúmulo anterior, muito anterior, e que, por diversos motivos, muitos mesmo, parece pouco divisado no nosso campo de possibilidades, nos dias que correm.
      Por outra parte, a iniciativa não se inscreve no campo do “chamado à unidade”, não era essa a ambição dxs autorxs, o propósito era mesmo encontrar alguns interlocutores. Acho inclusive que as duas postagens já cumpriram esse papel.
      Se tivesse que resumir a intenção dessa pequena “ousadia reflexiva” eu resumiria na seguinte sentença: “Tristes tempos esses onde é preciso repetir o óbvio”.
      Caralâmpio Trillas

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Informação

Publicado em 18 de julho de 2014 por em Resistências Estéticas.
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