Das Lutas

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Sobre a morte de seres humanos em um acidente aéreo…

fotocivilespanhola
Por Caralâmpio Trillas


Sobre a morte de seres humanos em um acidente aéreo ou qualquer outra modalidade de sinistro, devo dizer que sempre lamento. Sinto, como todo membro de uma mesma espécie, o esvaziamento. Sinto, principalmente, porque sou mais da soma que da subtração.

Todavia, devo dizer, sem constrangimento ou culpa cristã, que certos “passamentos’ não me (co)movem, no sentido de “mover com”, de estar junto, de mobilização emocional, de cumplicidade passional e de solidariedade comprometida. As mortes que de fato me (co)movem, além é claro daquelas de amigos e parentes queridos, são certamente as atravessadas por minha relação com as causas sociais.

Sinto imenso, antes de tudo, as mortes dos anônimos trabalhadores e trabalhadoras, provocadas por execuções sumárias, pelas diuturnas penas decretadas pelo Capital; ou que vivem, se é que se pode chamar a isso de vida, superexploradxs pelas mais diversas forma encontradas pelas classes dominantes. Isso de fato me (co)move.

Antes da morte, me (co)movem as penas dos vivos, as do “ranger de dentes”, as daqui mesmo desse nosso “vale de lágrimas”. Aquelas que implicam na substituição do mundo da abundância pelo da escassez, daquele da fraternidade pelo da competição aberta e naturalizada. Aquelas penas que, ao se instituírem, decretam infinitas outras penas, inauditas para uma parte da população, mas terríveis para quem não tem maiores “credenciais sociais”.

Para os que acham que a morte nivela a todos, que a “dama do cutelo” promove na extinção da vida a sociedade sem classes, devo lembrar do nosso saudoso poeta libertário Mário Quintana: “A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes”.
Estranho sistema esse que interdita nossa (co)moção, que prescreve para ela hierarquias e determina intensidades. Estranha forma de dividir seres humanos, entre aqueles que merecem ou não o nosso respeito, até na hora da morte. Perversa relação essa que cria camadas de sentimentos que imitam na forma e conteúdo a sua hipocrisia.

Uma vez que não podemos creditar toda a culpa ao capitalismo, sem antes dividi-la com seus mais destacados cúmplices, isso torna clara a necessária escolha dos campos de luta. Como vivemos ainda em uma sociedade da escassez, devo dizer que preciso também poupar as minhas lágrimas. Essas eu vou sempre reservar para as minhas companheiras e companheiros de jornada. Para os que sofrem e vivem os abusos do capital.

Na sociedade da abundância choraremos igualmente por todos.

Saudações Libertárias
Caralâmpio Trillas

Foto: Robert Capa

Um comentário em “Sobre a morte de seres humanos em um acidente aéreo…

  1. Pingback: SOBRE A MORTE DE SERES HUMANOS EM UM ACIDENTE AÉREO… | RESISTÊNCIA LSD

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Publicado às 17 de agosto de 2014 por em Para seguir lutando, Porrada! e marcado .
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