Das Lutas

Coletivo

Quem Pilota Esse Trem?

 

 

 

Por: Carlos Contente*
colo

Um aviso da Supervia circulou em um vagão de trem: “Em horários de pico talvez seja necessário deixar que outras pessoas sentem no seu colo.” Tão preciso como  bem humorado, o protesto sutil, inteligente e necessário circula nas mídias sociais despertando risos e aplausos de quem conhece a situação. Hoje a polícia civil abriu inquérito e sai a caça deste que senão poeta é um artista de alto nível.

Quem conhece e vive a situação do transporte públicos carioca reconhece que são “públicos” entre aspas, porque são quase “púbicos”: são um monopólio. Uma mesma “família” (ou famiglia porque a palavra em italiano dá um ar mais mafioso) que mistura políticos e empresários execráveis, que detêm a maioria das linhas de ônibus e têm seus braços nas barcas e Supervia. Uma quadrilha que têm o poder sobre o ir e vir do carioca, colocando o preço que achar que deve e enlatando feito sardinha o povo quando lhe apraz. Espremendo , comprimindo, cozinhando o trabalhador. Uma máquina de moer gente, sustentada com os impostos do povo, com a única finalidade de encher os bolsos de particulares. Máquina do Estado que só serve aos interesses do grande capital. Máquina pilotada por malucos do pior tipo.

Os cariocas conheceram nos últimos dois anos um leque amplo de formas de expressar insatisfação com o transporte. Pular a roleta, pedir carona ao motorista, fortes manifestações destacando a bandeira do passe livre e pelo fim da dupla função do motorista e agora a mais doce delas: a que ri da situação e dá o toque numa boa. Um simples adesivo.

Já vimos este filme: ao invés de ouvir e entender o recado criativo e genial do rapaz, que representa sim todo mundo que anda de trem, a Supervia responde com inquérito na Polícia Civil. “Vandalismo”. Crime contra a propriedade.

Emblemático. Na mesma semana a guarda municipal do Rio de Janeiro disparou tiros letais contra camelôs . O guarda municipal que atirou contra camelôs somente foi demitido. Em São Paulo um policial matou um camelô e já conta na sua ficha um assassinato de morador de rua. O que acontece com estes facínoras úteis ao Estado? Nada.

Tudo é resolvido com bala. Com polícia, com câmeras, com vigilância, com novas máquinas de controle como drones e smart phones; com presídio e com punição. Tudo? Nem tudo.

O crime do rico ou do bem posicionado na máquina do Estado nem são punidos de forma alguma, mas se forem, trata-se apenas de dinheiro, de capitalizar a máquina de moer. Onde está o filho do Eike, que atropelou um jovem ciclista com uma Lambourghini?  O playboy contou com um “bom advogado”e uma fiança de um milhão, somada a “serviços comunitários”que provavelmente devem estar sendo cumpridos à distância, talvez pela internet. Um milhão que para a família dele, dinheiro fácil fruto de truques no mercado financeiro, sai nas urinas.

Incontáveis helicópteros de chapa branca voam carregados de droga, juízes pedem auxílio educação de sete mil reais e incontáveis narinas bem posicionadas nesta sociedade se entorpecem celebrando suas carreiras, sua vaidade e seu vazio existencial, cheios de si com a ilusão do mérito próprio, sobem em palcos dados de mão beijada pelo Estado tecendo elogios ao liberalismo econômico, crendo que chegaram no topo pela força de sua competitividade. Só que não. As custas de gente espremida, cada vez mais pressionada por impostos, mais apertada e explorada no cotidiano e ainda removida de suas casas.  É assim que se criam as maravilhas da burguesia que flutuam feito bosta na orla marítima, do alto do seu IPTU e com o olhar apontado para a Europa onde seus filhos vão estudar, ou de olho no paraíso fiscal mais próximo. Ou salivando… de olho naquilo que o pobre conseguiu com muito esforço. É a tal da gentrificação, ou invasão branca que acontece na Rocinha, Vidigal, Maré….

O abismo social cresce e suas consequências viram caso de polícia. Entidade cuja função se aclara cada dia mais: servir ao mandante (sinhozinho) e proteger a propriedade privada. Nesta terra a propriedade vale mais do que a vida humana e muito, mas muito mais do que a liberdade. Por isso você está sendo filmado. Para a sua própria proteção, para te proteger da sua própria liberdade.

 

*Carlos Contente é artista plástico, frequenta as assembleias populares do Rio de Janeiro e contribui com o coletivo Das Lutas.

2 comentários em “Quem Pilota Esse Trem?

  1. DAISY
    22 de setembro de 2014

    Querido muito bem escrito!!!

  2. Marília Faria
    13 de outubro de 2014

    Republicou isso em Fanerítica.

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