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Voto Negro é Nulo

Por Fred Aganju Santiago – Campanha Reaja

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VOTO NEGRO É VOTO NULO!

Muitos, de fato a maioria dos partidos políticos, especialmente nas metrópoles, se tornaram descarados servos do capital. Por isso, competem entre si a serviço da riqueza sem sequer fingir que representam o povo. Os partidos são, na verdade, um obstáculo às necessidades e interesses do povo. Isso fica especialmente claro no chamado mundo desenvolvido, onde vemos que os políticos prometem uma coisa para serem eleitos, mas, uma vez que ocupam o cargo, rompem todas as suas promessas. – Múmia Abul Jamal

 

 

Correndo o risco de parecer anarquista, logo afirmo: eu sou negro e meu voto é nulo. Não por uma tentativa de invalidar a farsa do processo eleitoral ou muito menos por niilismo politico. Voto nulo pela constatação histórica de que processo eleitoral nenhum vai barrar o Genocídio em curso contra o Povo Negro no Brasil e diáspora. A grande verdade política dos últimos doze anos é que, ao contrário do que a esquerda branca vociferava, a governabilidade da matança não é uma mera questão de gestão governamental e sim da forma que o Estado está organizado secularmente para abater negros/as. É preciso ser dito que o debate em curso é civilizacional e que nossa luta é de libertação nacional de um Povo.

 
Há questões conjunturais e estruturais a serem mencionadas. Mas, para além de conjunturas e estruturas, é necessário demarcar para onde estamos apontando. Desse modo, ganha essas ideias que segue.

 
O Marco histórico contemporâneo da “democracia” no Brasil é a Constituição Federal de 1988. A chamada Constituição Cidadã foi fruto de um intenso processo de debate e luta política travada por movimentos sociais, partidos políticos e agrupamentos ideológicos de orientações diversas. A síntese dessa verdadeira batalha campal foi uma Carta Magna, que segundo alguns “especialistas”, seria uma das constituições mais democráticas e populares da história da humanidade. Mas não para nós negras/os.
Já na década de 90 a cólera punitiva do Estado brasileiro mostrava sua verdadeira face e pela mídia internacional pipocaram noticias denunciando chacinas e massacres encabeçados por agentes do Estado dentro e fora de serviço. Chacina do Acari, Massacre do Carandiru (1992), Chacina da Candelária (1993), Massacre do Eldorado dos Carajás (1996), são alguns exemplos da política genocida do Estado brasileiro nos primeiros anos da democracia. Esses casos foram apenas os que furaram o bloqueio da mídia racista, são muito mais. Recordo que no início da década de 90, mesmo lá no sertão da Bahia, já ouvia nos radios de fita as crônicas de guerra do grupo Racionais Mcs, denunciando o cotidiano violento que negros/as estavam sujeitados nos grandes centros urbanos no Brasil.

 
A democracia chegou aos negros através das capsulas de armas de fogo disparadas pelo Estado. A década da morte ou da prisão, como ficou conhecida, mostrou que a governabilidade da morte no Estado brasileiro independe de regime político. Estado Colonial, Imperial ou nas várias facetas Hidra republicanas, o que ordena o Estado é a morte sistemática de negros/as: Genocídio. Se há uma democracia de fato no Brasil, para negros/as foi democratizado apenas a morte.

 
Já nos primeiros anos do século XXI, mesmo diante dos corpos negros espalhados pelo chão e amontados nas penitenciárias, nossos “companheiros” da esquerda branca e nossos “irmãozinhos” tutelados por essa mesma esquerda, defenderam a tese que o problema não é o Estado em si, mas o grupo que o coordena, sendo assim, a estratégia política “correta” a ser adotada seria a tomada desse Estado para o posterior estabelecimento de uma nova governabilidade alicerçada em uma perspectiva democrática e popular.

 
O que se esqueceram de dizer, ou não se quis escutar, é que essa perspectiva democrática e popular seria coordenada, orientada e dirigida pelos brancos de “esquerda” e direita. Bem, o que esperar de uma suposta alternativa política dirigida por uma minoria branca em uma nação majoritariamente negra?

 
Nesses 12 anos de governo democrático popular supremacista branco o genocídio em curso operado pelo Estado contra negros/as atingiu patamares apocalípticos. Na contramão dos avanços conjunturais vemos cotidianamente o assassinato sistemático de jovens negros no ápice de sua idade produtiva, o superencarceramento de negras e negros em instituições de sequestro, a militarização e controle de comunidades negras através da instalação de campos de concentração apelidados de UPPs e até mesmo o ataque coordenado das forças armadas contra comunidades quilombolas (Vide Quilombo Rio dos Macacos).

 
É um modelo de governabilidade alicerçada na morte negra, que nos mostra que os partidos de esquerda ou direita formam uma elite política que compartilha de uma matriz cultural comum: o racismo e neocolonialismo expressado em sua dimensão mais nefasta: o genocídio. É um fato inconteste, para eles somos menos que animais e aqueles entre nós que são considerados animais, são adestrados por seus benfeitores brancos, para proteger seus quintais, suas casas, suas famílias, propriedades, seu Estado. Os próprios brancos os chamam de “negros de segundo escalão” e os tolos sorriem presenteando seus algozes com as guias que representam nossos ancestrais em terra.

 
Diante desse quadro chegamos às eleições de 2014. Eu não vou me ater a grandes análises, o que está em jogo já está posto. Nós sabemos que eleições são a maior farsa da democracia. Também compreendemos que Marina Silva, mesmo sendo uma mulher negra, não é alternativa ao modelo que esta em curso, é na verdade a testa de ferro de um modelo supremacista branco, teocrático e escancaradamente homofobico. É também um fato consensual, que Aécio Neves, para além de uma grande piada política, representa a tentativa desesperada de uma elite branca tecnocrata sulista. E Dilma, mesmo posando com asco de conta de Oxalá, quer mesmo é manter o poder real do Estado nas mãos dos brancos, dos partidos, das empreiteiras, da indústria da criminalidade e do agronegócio. Claro que não estou me esquecendo do bonde trotskista e afirmo novamente que compartilham da mesma matriz cultural, da mesma matriz. É preciso ser dito que o que esta em pauta historicamente nas eleições no Brasil são os projetos políticos dos brancos para o restante da nação.

 
Como disse no início, sem querer correr o risco de parecer anarquista, reafirmo: sou um homem negro e meu voto é nulo. Não caio mais no engodo do voto negro e estrutura partidária supremacista branca. Não caio na falácia de poder popular dirigido por uma esquerda branca “bem intencionada”. Não vou ser refém do votar “no menos pior” para encher de lucro as empreiteiras dos brancos. Não aceito poder partido, eu quero inteiro e sobre o controle de nossa comunidade. Pivete, entenda, meu voto é nulo enquanto tiver 60mil túmulos por ano.

 

Fred Aganju Santiago
Articulador da Campanha Reaja ou Será Morta/o
Professor que vota Nulo

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