Das Lutas

Coletivo

Sobreviver não basta

ilustração-4-2

Por Luis Carlos de Alencar

Foto: Luis Quiles

Um dos maiores inimigos da humanidade é o autoritarismo. Nas relações cotidianas, na dominação das mulheres pelos homens, nos projetos genocidas racistas, nos heteromandamentos do desejo, ou mesmo quando se expulsa alguém de uma comunidade ou um dito moderador apaga comentários, por simples discordância (algo bem na moda no facebook, mas de linhagem histórica que remonta a velhos hábitos fascistas ou ao velho expediente do centralismo democrático). Tem gente por aí que levanta a bandeira do dissenso como algo valoroso e necessário, mas que na hora do vamuver, desce o porrete na mesa, fazendo mais do mesmo.

É a ética da intolerância com aquilo que nega o universo do seu eu, é a reação de ódio contra o que nos aponta os limites do nosso corpo, dos nossos olhos, de nossa história. Mas não só. Também há aí um interesse: o de manter privilégios. Privilégios da fala, privilégios do lugar de onde se fala, da escolha do que se fala e para quem. Privilégios garantidos pela exploração da minoria.

O autoritarismo não é só um regime de negação e eliminação das diferenças; mais do que isso, é uma gestão dessa diferença para que os privilégios de quem exerce poder sejam mantidos. Dominar mulheres interessa ao homem não somente porque somos misóginos, mas porque exploramos o seu corpo, obtemos ganhos de inúmeras formas – superexploração do trabalho feminino, na rua e em casa; uso do corpo feminino pelo estupro, pela violência doméstica e da rua; lucratividade com o corpo feminino, desde o parto até a indústria de beleza, legitimação da solidariedade masculina, por oposição à mulher, etc. Matar negros e indígenas não é a única expressão ou objetivo do supremacismo branco – negros e índios continuam sendo necessários para que os privilégios brancos se reafirmem e se atualizem. A máquina de morte não pode parar de funcionar, nem voltar-se para outro público. Se todos os negros e indígenas desaparecessem neste instante do Brasil, o que aconteceria com toda a capitalização do sistema penitenciário? Com toda a dinâmica de gestão do espaço urbano, etnorracialmente dividido e militarmente controlado? Com todo o aparato repressivo policial, com todo o funcionamento racista do poder judiciário? Como abrir mão do morticínio, de sua lucratividade e do poder que ele gera? Resumindo: como uma sociedade e um Estado atravessadas historicamente pelo autoritarismo dos mais sanguinários do mundo pode viver sem mulheres e negros e índios para fazer funcionar suas moendas?

Para mulheres, gays, negros, indígenas, assassinatos por crimes de ódio talvez seja a cara mais terrível do autoritarismo: mas a dominação sobre nossos corpos para a manutenção dos privilégios é a mais recorrente, é a que nos mata em vida, todos os dias.

Quebrar a máquina do supremacismo branco, da dominação masculina, da heteronormatividade, não é só destruir seu poder de morte, mas sobretudo eliminar seu poder de vida, uma vida de privilégios gerados pelo sofrimento dos nossos corpos enquanto vivos. Sobreviver portanto não basta. É preciso quebrar as moendas.

Um comentário em “Sobreviver não basta

  1. radioproletario
    7 de julho de 2015

    Republicou isso em radioproletarioe comentado:
    Transcrito na íntegra do site Das Lutas

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 18 de dezembro de 2014 por em Resistências Estéticas.
%d blogueiros gostam disto: