Das Lutas

Coletivo

10 Anos da Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto.Em Defesa da Politização da Morte.

reaja 10 anos_n

Por Ricardo Gomes

“Nós não precisamos ouvir que somos fortes para prosseguir

lutando pois temos toda técnica e estratégia necessária para
travar o bom combate na guerra racial em curso.”
(Fred Aganju, militante da Campanha Reaja)

Há 10 anos em Salvador, Bahia, era constituída uma organização política saída das ruas, dos becos, favelas, comunidades e grupos de luta do movimento negro do Estado. A Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto foi criada a partir da necessidade real sentida pela população negra no Estado da Bahia que enfrentava grupos de extermínios que contavam e ainda contam com uma série de diálogos, visíveis ou não, com o Estado, quando não é o próprio Estado a cometer diretamente o chamado genocídio do povo negro, ou nas palavras delas e deles:

“A Campanha Reaja ou será mort@ é uma articulação de movimentos e comunidades de negros e negras da capital e interior do estado da Bahia, articulada nacionalmente e com organizações que lutam contra a brutalidade policial, pela causa antiprisional e pela reparação aos familiares de vítimas do Estado (execuções sumárias e extrajudiciais) e dos esquadrões da morte, milícias e grupos de extermínio.”
(http://reajanasruas.blogspot.com.br/p/quem-somos.html)

Logo de início cabe deixar claro aqui ao menos duas coisas. Primeiro, não tentaremos falar pela Reaja, ao contrario, reconhecemos que nossa fala só é possível porque parte de um espaço de atuação política que antes da Reaja nem existia enquanto tal. A denúncia do genocídio do povo negro só chegou à visibilidade na forma contestatória que tem hoje porque a Reaja pautou e qualificou o debate e a militância, junto com outros parceiros. Ao reconhecer isso, assumimos o lugar de aliados no trabalho de levar adiante esta luta sedimentada nos últimos 10 anos pela Reaja. Nesse sentido vale lembrar a fala de Hamilton Borges, coordenador da Campanha Reaja, logo após a II Marcha Internacional do Contra o Genocídio do Povo Negro, uma entre tantas ações desenvolvida pela Reaja:

“O que chamam de Pós Marcha para nós é a continuidade de uma luta cotidiana contra o racismo e o neocolonialismo do Estado Genocida Brasileiro, fundado no Direito Penal. É nossa voz que usamos como artilharia contra a hipócrita sociedade brasileira com suas ideologias de esquerda, direita e liberal, tudo a serviço do povo branco que se nutre a cada dia com nossa desgraça. Estamos reverberando a voz das ruas negras e encarceradas pelos grandes empreendimentos de controle, segurança e encarceramento.”
(http://reajanasruas.blogspot.com.br/2014/08/boletim-de-luta-campanha-reaja-ou-sera_30.html)

A segunda coisa importante a ser lembrada é que, no rastro do que dissemos antes, esse não é um texto de homenagem e sim de prosseguimento de luta. Falaremos de algo concreto que aprendemos ser fundamental na luta contra o genocídio do povo negro, colocando-nos na tentativa concreta de participação deste espaço político. Não se trata de felicitações e sim de aproveitar o momento para reafirmar aquilo que aparece como fundamental para atuação da Reaja, como eles afirmam, e para nossa atuação como parceiros nesta luta. Por conta disso, falaremos de algo que aprendemos com a Reaja e sua militância: a politização da morte.

Como a Reaja nos ensina, este é um recurso que visa sobretudo ampliar a luta, intensificar sua força, demonstrar que ela é afinal maior do que a morte. Não podemos entendê-la como mero desgosto com o fato de que, em algum momento, alguém próximo deixará de existir. Antes, o que ocorre é que esta forma de encarar o extermínio da população negra parte do pressuposto da necessidade de fazer justiça com os que se foram. Além de se estabelecer a partir de uma visão de mundo onde a ancestralidade não é algo menor, ao contrario, ela tem um papel fundamental na organização coletiva dos vivos. As relações com os ancestrais na cultura afrobrasileira são, de forma geral, relações de respeito e confiança. Estando eles vivos ou mortos. O que ocorre no genocídio é o entendimento de que aquela morte é uma morte coletiva, pois se vislumbra claramente uma ação implementada pelo Estado contra um parte específica da população, por isso é chamado de genocídio. Os números dos homicídios, nas cidades brasileiras não deixam dúvidas sobre isso (http://reajanasruas.blogspot.com.br/2015/03/oea-cobra-acoes-para-enfrentar.html). Ainda que o genocídio não se resuma ao extermínio direto, lembrar este números é suficientemente ilustrativo para demonstrar a solidez da luta da Reaja. Há uma constância que atravessa governos e épocas. Essa constante é a cor. Portanto, entendemos que, de diversas formas e com diversas táticas, há na estrutura da organização social brasileira algo que continua funcionando para super explorar e, no limite, destruir o corpo negro, o povo negro.

A extensão do extermínio é outra pauta fundamental levada a diante pela Reaja e que tem como consequência o entendimento de que na verdade ocorre um genocídio contra o povo negro. Sobre como isso afeta primordialmente as mulheres, por exemplo, nos fala Andréia Beatriz, uma das coordenadoras da Campanha Reaja

“Não a toa os projetos de esterilização em massa se travestem de controle de natalidade e planejamento familiar nas políticas públicas. Não a toa que o encarceramento em massa de homens e mulheres negras, encarcera e violenta também todos e todas que estão no entorno dos encarcerados, mas escolhe a exposição, a submissão a violação do corpo feminino não-reconhecida como tal e com a magnitude que tem. A peregrinação delegacia-hospital-IML ou delegacia-hospital-IML-Fundac ou delegacia-hospital-IML-presídio ou ainda “troca de tiros”-IML-cemitério tem sido rotina na vida de famílias negras, liderada por mulheres negras. As mulheres negras colocam suas mentes, almas e seus corpos a disposição da perpetuação do povo negro e por isto tem sofrido todas as dores das inúmeras violações do seu povo.”

(http://reajanasruas.blogspot.com.br/2015/03/entre-sobrevivencia-diaria-e-corpos.html)

No capitalismo atual este funcionamento é chamado por alguns dos mais importantes intelectuais antirracistas como necropolítica. A necropolítica seria um tipo de governamentabilidade que funcionaria a partir da morte, ou a partir de ‘padrões mórbidos de governança espacial’ (Jaime Amparo, http://www.abpn.org.br/Revista/index.php/edicoes/article/viewArticle/100), ou seja, estabelece políticas e práticas que engendra formas de controle social dos que supostamente são sem valor, ou tem baixíssimo valor, supostamente por culpa própria. Essa individualização da culpa se junta com a história racista das instituições jurídicas e policiais do nosso país. As articulações concretas do poder estabelecido se lançam sobre a vida de todos, em todos os espaços, subjetividades, desejos e relações e escolhem, dentro da ordem estabelecida, o corpo a ser abatido, o corpo que sendo constituído historicamente como anomalia, como sem valor, sem nome próprio, pode ser abatido. Este corpo que PODE ser abatido é o mesmo que a partir do uso da justiça penal (a única forma de justiça que o negro escravizado teve acesso) se transforma no corpo que DEVE ser abatido, estabelecendo a ideia do inimigo interno. Essa espécie de anomalia excessiva que é o corpo negro no mundo branco do poder estabelecido, desviante por excelência, é aquela vida que deve ser utilizada como forma de manter a ordem. É com o constante e estratégico massacre do corpo negro que o Estado e a ordem estabelecida se afirma. Desta estratégia contra o suposto inimigo interno se desdobra a militarização dos espaços, a super exploração dos precários e, no limite, como dissemos acima, a criação e destruição dos desviantes. Criação e destruição porque sabemos que não há tráfico de drogas, por exemplo, sem o apoio de diversos agentes do Estado, principalmente a polícia. Sobre esse quadro nos fala o militante da campanha Reaja, Fred Aganju:

“Diante de um quadro de terror racial, tortura e militarização racista de comunidades negras em todo o Brasil, não vemos a violência contra nossos militantes como um regime de exceção e sim como a continuidade de uma política de segurança pública herdada do colonialismo, alicerçada no racismo e na necropolitica racial. Se o povo negro é o inimigo interno a ser abatido pelo Estado brasileiro, nós que fazemos a luta ostensiva contra o genocídio do povo negro somos historicamente o inimigo público numero um a ser neutralizado pelos dispositivos de repressão racial.”

(http://reajanasruas.blogspot.com.br/2015/04/nao-precisamos-ouvir-que-somos-fortes.html)

Mas, é bom que se diga, a Campanha Reaja, seus militantes e ações, não se limitam a mera constatação do estado de coisas, ao contrário a necessidade do reconhecimento do problema efetivamente enfrentado pela população negra se dá justamente para traçar a melhor e mais efetiva estratégia de luta contra o genocídio. Assim, a Campanha Reaja nos ensina a constante relação entre análise e prática. Não iremos desdobrar o conceito de necropolítica, o fundamental aqui é esclarecer como a politização da morte se torna um componente fundamental na luta contra o genocídio. Somente pontuaremos com uma afirmação do filósofo camaronês Achile Mbembe:

“…o cálculo que governa as práticas culturais e políticas não têm mais como seu objetivo a sujeição dos indivíduos nem o gozo do poder sobre a vida em si mesmo. Sua função é abolir qualquer ideia de ancestralidade, e portanto qualquer dívida em relação a um passado. Surge aí, então, um imaginário original sobre a soberania cujo campo de exercício é a vida em sua generalidade. Esta última pode ser sujeita a uma morte empírica, ou seja, biológica. Mas ela pode também ocorrer “à prestação”, tanto quanto o podem as coisas, em uma economia geral na qual massacres e carnificinas são então relacionados da mesma forma que, no dogma marxista, o capital, o trabalho e a mais-valia costumavam se relacionar”( As Formas Africanas de Auto-Inscrição, Achille Mbembe).

Para a Campanha Reaja é absolutamente necessário afirmar que a relação com os antepassados, vivos ou mortos, é de dialogo efetivo, diálogo que permeia toda a cultura negra e, depois, mostrar que com a implementação da necropolítica como estratégia atual de controle do corpo negro, a politização da morte serve para fazer com que essa relação entre antepassados possa trazer justiça a todo o povo, já que se trata de um genocídio. Ela afirma que politização da morte, de alguma maneira, ilumina o que continua aqui, no sentido muito preciso de apontar que esta morte tem uma causa e um objetivo específicos. O depoimento do corpo assassinado nos mostra os meios usados, o espaço e a raça sobre a qual uma certa forma de matar é elevada à peça fundamental do funcionamento da engrenagem social, da governança. Em que parte do corpo ele foi alvejado, em qual local da cidade, qual o discurso precede sua execução, qual farda repetidas vezes é usada pelo seu executor, qual tipo de conversa aquela morte traz nas mesas dos homens de bem.

A morte e seu mundo, mais do que denunciar uma estatística enfadonha, nos cerca de figuras, subjetividades e ações absolutamente reconhecíveis, mas que antes da morte estavam fragmentadas. É a constância da morte em suas diversas formas, de um corpo específico, o corpo negro, que permite visualizar toda a estrutura genocida implementada pelo Estado. Do mesmo modo é ela que permite a desconstrução material do moralismo do homem de bem, pois ela é o momento máximo da violenta naturalização onde ele forja sua existência. Ela é a imagem do controle que poderes constituídos criam, em sua sanha de manutenção da ordem estabelecida, pois é ela que supostamente corta as relações e inibe os encontros. Dizemos supostamente porque a ação da Campanha Reaja visa justamente promover novos encontros entre os que foram assassinados com a potencia que ainda vive, o que implica a alteração material da vida, da nossa organização política e social.

Dizer isso não se configura de nenhuma forma como elogio à morte, ao contrário, chegar a todas estas afirmações é um trabalho árduo que implica antes de tudo reconhecer o fato, ou seja, a Reaja politiza algo já ocorrido, numa tentativa de não aceitar a brutal normalidade do ato imposto. Estamos no âmbito de uma denúncia muito específica, aquela que é capaz de fazer ouvir a multiplicidade de vozes no lugar de uma ‘criminalização qualquer’. Nesse sentido, pode-se dizer que a designação política da morte serve para empoderar uma coletividade altiva, ou, ‘falar de alguém a uma potência apta a refleti-lo e a duplica-lo’ (Deleuze, Lógica do Sentido, 292). A Campanha Reaja ou será Mort@, ao combinar características imanentistas da cultura afrobrasileiras com o desdobramento material da destruição dos corpos negros, elabora uma ética de um luto-luta. Um investimento prático para os que perdem seus parentes e amigos, uma aliança positiva para a comunidade que salta da dor para a causa da dor e acessa uma possibilidade de enfrentamento deste estado de coisas. Assim, fica claro a materialidade afirmativa e propositiva desta politização. Chegar à causa numa ação coletiva potente.

Nesse sentido afirmamos que não é compreensível nem aceitável a simplificação que diz que politizar a morte é igual a celebrá-la. Para desenvolver uma prática afirmativa é preciso mais do que dizer um mero e tolo ‘Viva a vida!’, é preciso carne, é preciso encontrar meios reais para isso ser efetivado. Politizar a morte é um tipo de engajamento que estende a vida. Em situações de genocídio como a que vivemos, simplificações (como a descrita acima) violam a dignidade daqueles que se utilizam deste meio para transformar a dor em ação. Além de fortalecer a tradição de conciliação que as classes dominantes conseguem impor ao senso comum nacional. Por isso, pergunto, principalmente para os tais servos do pragmatismo, com quantas mortes nós conseguimos conviver? Diante de quais devemos nos calar? Diante de quais devemos contabilizar a necessidade de um crítica ao governo, à esquerda, ao partido e assim por diante? A governamentabilidade legitima uma série de mortes contra as quais ninguém se posiciona de forma efetiva, ou acredita que é melhor calar, ou mesmo acredita que está se posicionando da melhor forma diante dela. Enfim, sem moralismo, sabemos que a relação com a morte dentro da política é constante por conta das relações de força que as lutas implicam, pelas heranças herdadas e etc. O que nos deixa consternados é que estes canalhas apontam dedos sujos de sangue contra lutas legítimas, certamente em prol dos seus dividendos políticos, da sua contabilidade eleitoral, seja na democracia representativa propriamente falando, seja nas teias de apropriação que os canalhas lançam em projetos positivos. É preciso saber conviver com a morte, com as estratégias e as respostas que são dadas em favor da vida e contra genocídio.

Para finalizar lembramos que essa excepcionalidade do corpo coletivo negro é visto desde sempre também como possibilidade positiva de construção para além do Estado e da ordem estabelecida. Não é a toa que a Reaja atua incansavelmente e preferencialmente nas comunidades, com a construção das marchas contra o genocídio do povo negro assim como tantas outras ações políticas que visam criar uma alternativa real à organização política e social no país. A precariedade da vida nessas comunidades nunca conseguiu destruir os laços fraternos e solidários estabelecidos entre a maior parte do seus moradores. Isso certamente está vivo na militância da Reaja, como as afirmações abaixo demonstram

“Os Núcleos de Familiares são a célula básica de nossa organização, as instancias máximas de deliberação, formulação e o nosso conselho estratégico é composto basicamente por mães e pais vinculados a Núcleos em toda periferia de Salvador e algumas cidades do interior da Bahia.  Ancorados na tradição pan-africanista comunitária, compreendemos que a família é um espaço organizativo por excelência da comunidade negra na diáspora. Cada barraco é um posto avançado. Cada família um aparelho revolucionário. É a partir da noção de família extensa que conduzimos a consolidação de nossa Plataforma Pan-africanista Contra o Genocídio do Povo Negro.” (Fred Aganju, reajanasruas.blogspot.com.br/2015/04/nao-precisamos-ouvir-que-somos-fortes.html)

“Os homens negros têm representado a nossa liderança ostensiva, enquanto que nós, as mulheres negras temos sido a liderança indecifrável aos olhos comuns, toda a estrutura, o sustentáculo que tem permitido através da gestação, do trabalho diário, das lideranças das famílias, dos cuidados e ensinamentos comunitários que sigamos em frente. “ (Andreia Beatriz, http://reajanasruas.blogspot.com.br/2015/03/entre-sobrevivencia-diaria-e-corpos.html

Dentro desse paradigma comunitário e socialmente ativo e renovador desenvolvido pelo movimento negro que sustenta a Reaja, é que está inserido a politização da morte. Sua utilização confirma a autonomia de um povo que inventa a força necessária para demonstrar a causa política que deve ser atacada e efetivar a liberdade para fazer outro mundo.

Pela vida, contra o genocídio do povo negro, nenhum passo atrás!

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