Das Lutas

Coletivo

Meus três abortos, ou como a vida pode ser diferente para as mulheres que decidem seguir em frente

"Meu corpo, minha escolha"

“Meu corpo, minha escolha”

*Por uma Das Lutas anônima, mas nem tanto

A DOR

Aos 17 anos, engravidei pela primeira vez. Me apaixonei perdidamente por um fotógrafo bem mais velho do que eu, ele devia ter 38 na época, extremamente sedutor e mulherengo. Logo de cara, nossa relação foi abusiva, ele me manipulava, me fazia ficar próxima de uma das filhas dele (e me afeiçoei à criança), me expunha, era possessivo, mas sem dar pinta para quem estava fora da relação. Eu estava muito envolvida, muito entregue, e não percebia que esse era um modus operandi, era uma forma de controle. Um dia, em casa, passei muito mal. Enjôo, cólicas… fui parar numa emergência, achando que era problema na menstrução. Estava grávida. Três semanas. Fiquei sem ação. Desde novinha eu imaginava como seria quando eu tivesse filhos, e fantasiei como seria ter aquele filho com ele. Eu liguei pra ele para contar, cheia de sonhos, expectativas de uma mocinha apaixonada, ainda com pretensões românticas… e ele falou categoricamente que aquele filho poderia ser de qualquer um. Ele não iria assumir nada, e eu era “uma vagabunda que saía com qualquer um”. E mais, não me daria um tostão para eu tirar um filho que não era dele. Claro que não era verdade, eu só estava com ele, mas ele estava usando uma das muitas armas que o patriarcado oferece: o aborto masculino. Ali, ele abortava aquele filho, sem a menor dor ou problemas. Para mim, os trâmites foram muito diferentes.

Eu queria aquele filho. E fui conversar com as minhas amigas da época. Elas simplesmente me destroçaram. Expuseram toda a violência da minha relação com o cara, ridicularizaram o fato de que eu ainda pudesse querer ter aquele filho, que seria uma ligação eterna com ele, que aquilo ia estragar minha vida (eu não acreditei nisso, nem lá, nem hoje em dia, esse nunca seria o motivo), que minha mãe nunca ia me perdoar (elas não sabiam que minha mãe era feita de companheirismo). Percebendo que não tinha jeito, que eu ia ser julgada eternamente (assim que me sentia), como muito medo, eu decidi que precisava tirar aquele feto de dentro de mim. Tentei com o Citotec, mas não adiantou, só tive uma hemorragia, morri de dores, mas a quantidade que me recomendaram não era o suficiente para que desse certo. Fui parar num hospital público e tive que ouvir absurdos religiosos de uma médica (que ela sabia que eu tinha tomado algo para abortar, que eu ia parar no Inferno, que ela estava cansada de ver vadias como eu engravidarem e não assumirem a responsabilidade, etc. etc.). Ainda não haviam coletivas feministas que pudessem ajudar e ensinar meninas desesperadas. Tive que recorrer à minha família, com muita vergonha. Estávamos passando por muitos problemas financeiros, meus pais tinham se separado e tudo era muito complicado. De qualquer forma, consegui marcar, com o que conseguimos, em uma clínica baratinha num bairro da Zona Norte, recomendada por uma amiga de uma amiga de uma amiga que havia feito o procedimento lá. Entrei naquela casa escura com muito medo, mesmo acompanhada. A sala era mal higienizada, um cheiro estranho, cheia de ladrilhos quebrados, sofás marrons de couro e o médico era um senhor com cara de mau humor nada reconfortante. A única pessoa ali que sorria, tentando ser receptiva, era uma enfermeira, uma mulher grande e gentil. Usava tranças afro enroladas em um coque preso numa touca branca. Ela me pediu para entrar e sentar na mesa ginecológica. O médico entrou, me deu um remédio sublingual e uma injeção anestésica. O problema foi que a injeção não pegou. Eu senti cada etapa do processo, urrando de dor, enquanto a enfermeira olhava para mim com aqueles olhos gentis, passava a mão na minha cabeça tentando me acalmar, me dizendo que “já estava acabando”. Depois de um bom tempo de muito sofrimento, fui levada para uma outra sala, onde pude descansar por alguns minutos em um dos sofás marrons antes de ir embora. Tive dores muito fortes, contrações uterinas absurdas, de me levarem a delirar, e hemorragias que escondia de minha mãe, ficando horas no banheiro durante uma semana, chorando envergonhada.

O saldo dessa experiência foi duro, foi muita anemia, foi muito medo de morrer, e foi muito ódio e incompreensão de porque eu havia sido jogada nessa fogueira por tanta gente que dizia que me amava. E claro, muitos olhares tortos pelo “pecado” que eu havia cometido e que, “de repente”, todo mundo parecia saber.

 aborto

O ALÍVIO

Aos 24 anos, dei mole com a tabelinha, calculei errado, e engravidei de meu ex-marido, na época ainda era namorado. Eu estava muito doente. Muito doente mesmo. Com depressão gravíssima e síndrome do pânico. Já foi chamado de psicose gravídica, ou de depressão gestacional e eu não sabia como era comum. Só fui saber muitos anos depois, lendo um estudo sobre patologias mentais durante a gravidez. Na minha cabeça, não havia a menor possibilidade de ter uma criança. Eu provavelmente mataria qualquer ser que dependesse de mim naquele momento, fosse planta, bicho ou bebê. Mal conseguia sair da cama, quanto mais pensar em passar madrugadas amamentando, criando, cuidando… Ele deixou bem claro que a decisão era minha, mas eu conseguia ver o medo que ele estava sentindo. Não era a hora, não tínhamos condições de ter e cuidar bem de um filho. Nem condições materiais, nem condições emocionais. Eu estava tão mal, que até terminei com ele, não queria ver a pessoa que havia causado aquilo (ciente que havíamos feito tudo juntos, mas além da doença, meus hormônios estavam me deixando irritadiça, quase raivosa…até o cheiro dele me incomodava).

Juntamos nossos dinheiros, recebemos ajuda de amigas queridas e pude marcar em uma clínica de alto luxo na Zona Sul. Uma clínica que parecia um hospital. Limpa, cheirosa, toda arrumadinha. Fiquei esperando numa sala, e lá recebi a medicação sublingual. Quando começou a fazer efeito, fui encaminhada para a sala de procedimento numa cadeira de rodas, e ao chegar percebi que era um centro cirúrgico. Recebi anestesia geral das mãos de um anestesista, o obstetra me mandou contar de trás pra frente, e apaguei por completo. Quando acordei, estava numa maca, coberta com um lençol, e rapidamente uma enfermeira veio me ajudar a vomitar (a anestesia causa isso) e passar pano molhado no meu rosto. Não me lembrava de nada! Não senti nada do processo!!! Eu chorava convulsivamente e ela me abraçou, achando que era tristeza. Eu a abracei de volta, olhei as outras macas e vi outras mulheres chorando e sendo amparadas. Era um lugar de escolhas difíceis, mas onde as mulheres eram realmente amparadas!!! Olhei para a enfermeira, e disse: “estou triste, mas esse choro é de alívio, acabou”. Ela sorriu, sem julgamentos, e me ajudou a levantar e trocar de roupa. Na saleta ao lado, um pequeno lanchinho, “só para levantar a pressão”, ela me disse. Recebi os medicamentos que precisava para conter a hemorragia e qualquer possibilidade de infecção (vejam bem, me deram os medicamentos!) e pude ir embora com a amiga que me aguardava, pois não quis que ele fosse comigo e ele respeitou. Mais tarde ele foi me ver e choramos juntos, pela tensão de tudo, pela experiência partilhada (em alguns níveis) e deitei em seu colo e seu cheiro não importava mais.

Esse foi o aborto que quem tem dinheiro pode fazer. Esse foi o aborto que toda mulher que não quer ter um filho deveria ter o direito de fazer, pelo SUS, pelos planos de saúde. Mas as mulheres com dinheiro abortam com segurança, as pobres morrem com hemorragias e intolerância.

CORPO

A TRISTEZA

Nesse meio tempo, aos meus 29 anos, eu tive um tumor no ovário esquerdo. Esse tumor era enorme e englobou meu ovário e minha trompa. O médico que me operou precisou retirar ambos junto com o tumor, e me disse que eu tinha sorte de não ter perdido todo o aparelho reprodutor, pois o tumor era agressivo, apesar de não ser maligno. Fui avisada que, se eu já tinha uma certa dificuldade com ovulação, tinha períodos menstruais dolorosos, seria muito pior. E que provavelmente eu não mais conseguiria engravidar. O ovário que sobrou já tinha um cisto grande, que foi raspado, mas a possibilidade de ter outros era certa, então entrei no tratamento de pílula anticoncepcional ininterrupta. Não menstruaria mais e diminuiriam os folículos que poderiam se tornar tumores na área.

Aos 36, achei que tinha encontrado um amor desses de arrebentar o peito. Passávamos horas e horas discutindo livros e rindo na cama, depois de uma noite juntos. Ele despertava em mim o desejo de cuidar, de estar junto, de mexer em coisas na minha vida que eu havia deixado para trás. Eu não fazia o mesmo por ele, acho que ninguém seria capaz de fazer o mesmo por ele, uma vez que ele é a pessoa mais importante de sua vida. Poliamorista, de acordo com ele, abusador psicológico, de acordo comigo. Uma pessoa desestruturada e egoísta que questionava o status da nossa relação o tempo todo somente para garantir que ela não alcançasse status algum. Me dava amor num dia, para tirar no outro. Me deixou sozinha num dos piores momentos da minha vida: quando fui agredida e quando minha avó morreu. Estou explicando essa relação para poder explicar minha decisão de não avisar a ele que estava grávida. Minha decisão de tirar essa pessoa determinamente da minha vida. Soube duas semanas depois que terminamos que eu estava grávida. Mas somente quando fui parar no hospital com dores que fariam o mundo explodir que soube que era uma gravidez ectópica, ou seja, o feto estava se desenvolvendo dentro da trompa de falópio.

Quando soube que estava grávida, todo um misto de sentimentos me perpassou. Ter um filho, finalmente. Ter um filho de alguém que amo, mesmo que essa pessoa não esteja presente. Ter um filho, meu momento, minha escolha. Dessa vez, foi meu corpo que não quis. Se eu não tomasse o medicamento, eu perderia a trompa que me restava e poderia morrer no processo. Meu corpo, minha regras, minha vida em primeiro lugar. Chorei muito, sozinha, eu queria ficar sozinha naquele momento, era muito triste saber que algo que me foi dito que jamais tornaria acontecer, aconteceu, mas eu não poderia ter. Como minha avó estava internada, caminhando para seu falecimento, não contei para ninguém o que estava acontecendo. Marquei com o médico e fui sozinha para o hospital. Um hospital particular. Um ginecologista num hospital particular pago pelo plano de saúde que eu tinha na época. Ele conversou muito comigo. Me explicou exatamente o que faria. Ele aplicaria uma injeção de Metotrexato e Misoprostol, que provocaria uma hemorragia severa com aborto num período de 1 semana. Após o aborto, eu deveria voltar para curetagem e ultrassonografia. Quando a gente tenta explicar a dor para pessoas, geralmente elas não entendem, a não ser que tenham passado por isso. Vou tentar ser gráfica: meu útero contraía com tamanha força, que eu não conseguia ficar parada em um lugar da cama. Quando o fluxo de sangue veio, era tanto, que eu precisava ficar sentada na privada por minutos e minutos. A força era tão grande que parecia o experimento em que se coloca um mentos dentro de uma Coca Zero. Logicamente, o médico passou um medicamento para dor e outro para conter a hemorragia. Quando voltei ao hospital, ele me informou que a curetagem seria apenas para garantir que não haveria infecção, porque eu já havia expelido toda a “massa”. Me passou mais uns medicamentos e me pediu para voltar em 6 meses. Eu não pude voltar, porque nesse meio tempo fiquei sem plano de saúde e sem grana para pagar um médico de hospital particular. Mas ficou tudo bem, porque fui tratada a tempo, sem preconceitos e sem medos. O procedimento era “legal”, uma vez que minha vida estava em perigo.

Me pergunto quantas vidas em perigo não foram tratadas a tempo, ou adequadamente porque as pessoas acham que aborto é uma monstruosidade? Quantas mulheres não morreram por viver o mesmo que eu vivi? As estatísticas são assustadoras. O aborto “clandestino” é a quinta causa de morte materna no país. Mais de 850 mil mulheres realizam abortos por ano no Brasil. E morrem milhares porque a anestesia não pega, ou dá choque anafilático, porque não sabem a quantidade exata de medicamento tomar, porque nem tem dinheiro para um médico e furam o útero com um arame e ficam jogadas sangrando num quarto qualquer. Morrem porque quando chegam na emergência de um hospital com hemorragia causada por tentativa de aborto, são mal tratadas, mal recebidas, julgadas como vadias, vagabundas e pecadoras. E mesmo que o caso tenha sido de aborto espontâneo, muitas vezes recebem o mesmo tratamento, porque nossa sociedade é perversa com mulheres. Mulheres que trepam, mulheres que engravidam, mulheres que adoecem, mulheres que… SÃO MULHERES. Mulheres que querem ser donas de seus corpos.

 01

Eu estou compartilhando minhas experiências mais traumáticas com vocês porque sei que alguma mulher vai ler e vai se enxergar aí. E vai se perdoar, como eu me perdoei. Vai se olhar no espelho e entender que essa culpa não vem dela, mas de uma sociedade patriarcal conservadora e moralista,  com valores ultrapassados que precisam ser rebatidos diariamente. E quem sabe algum preconceituoso leia, e perceba que fazer um aborto não é ir ali na esquina tomar um cafezinho. Fazer um aborto causa muita dor, física, emocional. Muita. E tudo que nós mulheres precisamos é de compreensão, apoio e o direito de decidir.

9 comentários em “Meus três abortos, ou como a vida pode ser diferente para as mulheres que decidem seguir em frente

  1. Daniele
    26 de maio de 2015

    Senti cada dor sua ao ler esse texto. Lembranças como essas devem ser sempre difíceis de recordar, parabéns.

  2. Ana Eufrázio
    26 de maio de 2015

    Obrigada por compartilhar essa experiência tão dolorosa e marcante. Parabéns pela coragem. Sinto muito que tenha tido de passar todas as dores (física e psicológica) pelas quais viveu.

    • MCS
      27 de maio de 2015

      A autora agradece o comentário tão caloroso. Pede para avisar que ela sobreviveu, que teve muito apoio no feminismo e que está muito bem, por isso decidiu compartilhar sua história. Abraços.

  3. Mari
    27 de maio de 2015

    Senti a dor que essa mulher sentiu, contudo, não acho que é justificável o aborto quando a mãe e o feto estão saudáveis, uma vez que a gestação pode ser EVITADA. Nos casos em que a saúde da mãe está em risco é LÓGICO e NATURAL que seja feito o aborto. Mas a mulher estando saudável? Sei que “acidentes” acontecem e muitas gestações indesejadas decorrem destes acidentes..mas 3 vezes? Por 3 vezes ela engravidou sem planejar? Entendo o blábláblá que a mulher sofre sozinha e o homem não. Isto é um fato. Quem engravida é a mulher e quem sofre as consequências é a mulher, mesmo o homem tendo participado ativamente na fecundação. Infelizmente é assim. Mas não justifica a mulher abortar.. Se a mulher SABE que pode engravidar e quais seriam as consequencias e EXISTEM meios de evitar, EVITA! Usa camisinha, pilula, injeção..se proteja MULHER! Eu sou mulher e jamais abortaria em condições normais. Somente nos casos em que a gestação pudesse afetar minha saúde, fertilidade e risco de vida. Ou talvez um feto gravemente doente que não pudesse sobreviver. Acredito sim que a mulher sofreu muito em cada aborto e imagino que as dores tenham sido traumáticas, mas ela não aprendeu com a tragédia.

    • MCS
      27 de maio de 2015

      Mari, em que ponto do texto você leu que a moça não evitava, a não ser com o próprio marido (e fazia tabelinha), e mesmo assim, ela ficou tão doente que não conseguiria ter o filho? Em instante algum a autora defende aborto como um método anticoncepcional, se foi isso que você entendeu, sugiro que releia. E ao dizer que ela não aprendeu com a tragédia, suponho que você conheça a autora, e que saiba como é a vida da mesma hoje em dia para fazer uma afirmação tão potente. Porque se não conhece, não faz sentido e é apenas mais uma opinião de internet infundada. Abraços.

    • Sylvia
      29 de maio de 2015

      Nenhum método anticoncepcional é 100% eficaz além do celibato. Você pode usar pílula e caminha, as proteções não se somam, não é 100%.
      A pílula falha 0.3 relações em 100 se usada na forma ideal. 3 relações em 1000, 3 possíveis mulheres grávidas que estavam fazendo a sua parte. Se é “acidente” ou não, indesejada ou nao, é escolha da mulher

    • Sylvia
      29 de maio de 2015

      Nenhum método anticoncepcional é 100% eficaz além do celibato. Você pode usar pílula e caminha, as proteções não se somam, não é 100%.
      A pílula falha 0.3 relações em 100 se usada na forma ideal. 3 relações em 1000, 3 possíveis mulheres grávidas que estavam fazendo a sua parte. Se é “acidente” ou não, indesejada ou nao, é escolha da mulher

  4. Giu Pinheiro
    27 de maio de 2015

    CREDO! LEI DO RETORNO

    • MCS
      27 de maio de 2015

      Estou tentando entender seu raciocínio, Giu. O que seria Lei do Retorno nesse caso? Tudo que a moça viveu? E as outras pessoas envolvidas? E a questão do corpo ser dela e ela não acreditar nessa lógica cristã/neopagã?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 25 de maio de 2015 por em Resistências Estéticas.
%d blogueiros gostam disto: