Das Lutas

Coletivo

Reposicionando-se em Face

big-brother-201

Por Luis Carlos de Alencar

 

Recentemente tenho adotado uma nova estratégia de uso do facebook. Desativo a minha conta, passo mais de dez dias fora e retorno por um final de semana, ou menos. Desde que percebi o uso compulsivo que estava fazendo dessa rede social, comecei a entender o quanto o território de Mr Mark acabou por se estruturar como um vício em minha vida: mais de 10 horas dedicadas ao conhecimento dos fatos políticos ocorridos em tudo quanto é canto do mundo, à leitura das recentes escritas de amigos e amigas sobre suas vidas pessoais, seus pensamentos, e à produção de conteúdos para coletivos de que faço parte, para debates de amigos e amigas militantes sobre os mais diversos temas (sempre urgentes). E ainda não nos esqueçamos dos vídeos inebriantes de flagrantes trágicos, curiosos e cômicos, de execuções policiais a cangurus de fraldas. E isso concomitantemente às minhas tarefas domésticas, profissionais e tudo o mais.

 

A retirada de campo foi um reposicionamento político. Em vez de frenesi facebookeano, tentar desfrutar de uma relação mais pontual, objetiva e direcionada com esse lugar maldito. A rede de Mr Mark afoga-nos em informações, imagens e textos, sem que isso signifique necessariamente uma boa fruição nem formulação (política, subjetiva, artística, de qualquer natureza). Muitas vezes é só consumo de informação. Por outro lado, há para mim a urgência do foco e a necessidade de realização das atividades em que me envolvi (de corpo presente!). Impossível estava fazer conviver ambas as coisas.

 

Informação não é necessariamente formação. Informar também pode ser estratégia de entorpecimento, por melhor que seja a informação. Ler compulsivamente livros pode ser uma boa forma de não escrever; assistir compulsivamente filmes, excelentes que sejam, as vezes é pra não filmarmos nada. Os milhares de canais de uma televisão já foram acusados de ser manancial de informações alienantes, entorpecedoras, que distraem e homogeneízam o olhar, mais do que estimulam a reflexão, a libertação, a convivência comunitária.

 

No caso do face, acredito haver uma dinâmica ainda mais eficiente e portanto muito mais cruel do que a televisão. No lugar de conteúdo ludibriante, o entorpecimento se revela no compartilhamento de verdades: há um desfile de textos fundamentais que mudam, sim, a nossa compreensão da realidade, e uma participação inédita em intensidade e em escala das sociedades contemporâneas no debate. Quem duvida da importância dessa rede para as jornadas de 2013, para os rolezinhos, para o chamado “levante feminista” dos últimos anos no Brasil? Mesmo este texto aqui, de crítica ao uso do face, terá sua leitura consideravelmente tributada ao face, por onde será difundido.

 

Mas é no excesso que a crueldade dessa máquina se apresenta: o fluxo incontinente de teor crucial, o jorro de conteúdos fascinantes, longe de aprofundar, acabam por nos seduzir. A minha timeline, por exemplo, não tem postagens que julgue ruins. Sempre atualizei a raspa de pessoas que sigo (e talvez tenha a sorte de ter entre minhas amizades uma penca de gente boa). Tal situação me leva – e isso é um engraçado e terrível ao mesmo tempo – a ter um caudaloso rio Amazonas de assuntos interessantes, inadiáveis, fundamentais-sem-os-quais-não-posso-conseguir-viver, todos os dias, todas as horas, a qualquer instante, como uma torrente vertical sob meus olhos. São os mais variados estímulos, como já disse: humor, fatos, imagens, todos acavalados, se revezando e renovando a atração da atenção. Horas e mais horas dedicadas ao consumo incessante, rodopio em meio a fogos coloridos estourando por sob os olhos e maravilhado assisto a tudo. Mas não há a opção de olhar pra trás, de olhar pra fora, de olhar pra além. Todas as revoluções são permitidas no facebook, mas desde que ocorram ali e que gere mais e mais conteúdo.

 

Os gozos à conta-gotas provocados por curtidas, compartilhamentos e comentários nos cativam. Somos induzidos e estimulados a uma prática política “online”.  E se esta não pode ser desprezada por nenhum militante (ao contrário), cabe entender todavia como ela se vincula a ações “offlines”. As encruzilhadas azuis do face não deveriam nos afastar das praças comunitárias; os afetos virtuais não deveriam substituir o encontro de corpos; as ações organizadas pelas redes não deveriam sobrepor a necessidade de eu sentar ao seu lado e juntos nos tocarmos, nos sentirmos, nos pensarmos, conflitarmos e juntos elaborarmos.

 

As pessoas querem sociabilidades virtuais, querem ser as identidades virtuais que criaram de si e passam a agir com outras identidades visuais, que para eles são a revelação única das pessoas. Não há nada contra isso, afinal quem nunca fingiu ser outro alguém em bate-papos virtuais (e mesmo nos não virtuais)? O problema começa a ocorrer quando não há mais diferença entre corpos e avatares. Há uma proliferação da ideia de que somos avatares convivendo com avatares. Uma relação pautada pela superficialidade, pela monovalência, por um sentido rasteiro e monolítico (somos inimigos, ou amigos, ou odiosos, ou anjos, nunca tudo isso ao mesmo tempo). Eu te adiciono e digo que te amo da mesma forma que destilo todo o meu ódio num comentário de duas linhas. E se você achar ruim, decreto meu ato derradeiro: te bloqueio.

 

Eu realmente estou cansado dessa ética do avatar. De tanta gente radical de post, que jamais soube e nem quer viver um processo coletivo, uma vivência real e direta com as contradições, com as idiossincrasias (e haja paciência) de cada pessoa, com os riscos, os desacertos, as angústias, os desafios, o fracasso, a morte, e a alegria, na formação de uma ação comum. A virtualidade facebookeana nos empodera, porque podemos expressar e sermos lidos, somos produtores de conteúdo como nunca houve na história da humanidade, e temos público!!! Ao mesmo tempo protagonizamos um patético melodrama, onde os personagens preferem vomitar seus credos revolucionários, apontar a traição e a velhacaria alheia, bancar juízes, promotores e defensores – e principalmente carrascos, cultivar pessimismos proféticos ou entusiasmos preguiçosos, escudados todos por seus avatares.

 

E pior! Quando essa ética do avatar transborda para a realidade offline e passamos a ter nossos corpos tratados como se avatar fôssemos: compromete-se o cultivo das relações afetivas, dificulta-se o aprofundamento das sensibilidades, temos que lidar com performações que produzem manipulação falaciosa, irresponsabilidade e o descompromisso egoísta com a consequência de nossos atos para com outras pessoas. E a presença dos smartphones em tudo quanto é lugar? Nas mesas dos restaurantes, nas reuniões dos espaços comunitários, nas boates, no pátio da Universidade. Parece que a validade do real só se confirma com sua postagem no face. Não sei ao certo, mas o que sinto é que fazemos de tudo para evitar qualquer sedimentação dos corpos, porque corpos tem pele, pele costumam ser sensíveis, e o que sente pode doer.

 

Os processos precisam ser eles mesmos os objetivos que queremos atingir: se queremos a autodeterminação, o processo não pode ser representativo; se queremos uma dinâmica social horizontal, como conseguir isso a partir do autoritarismo? Se queremos uma sociedade justa, solidária, que conviva com suas diferenças, incluídas aqui as pluralidades de tempo, de fluxo, de ritmo, de caminhada, é desse jeito que devemos atuar nesse processo. Portanto ele não pode ser tratado com o caráter frenético e irreversível de uma timeline.

 

Política é processo coletivo entre corpos. Os avatares não podem querer superar os corpos, mas deveriam ampliá-los, ser mais uma expressão política dos nossos corpos e não a razão do nosso atrofiamento. Não devemos nos satisfazer com os apulpos que embevecem-nos diariamente através de curtidas e compartilhamentos; nem gastar pestanas com todo e qualquer vitupério dos empedernidos das madrugadas virtuais. Não podemos permitir sermos corrompidos, entorpecidos para que nos tirem das fileiras da luta. Atuar pela mudança exige paciência e compenetração: tudo o que o facebook jamais nos dará.

 

Não há libertação possível sem organização, não há levante sem corpos, não há afetos sem pele, não há rede sem carne, não há luta sem dor. Há uma timeline ainda mais poderosa atualizada diariamente nas cicatrizes gravadas em nossos corpos (e que devem ser atualizadas materialmente em todas as nossas relações virtuais).

 

Reposicionem-se.

 

 

 

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Informação

Publicado em 27 de maio de 2015 por em Resistências Estéticas.
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