Das Lutas

Coletivo

A Continuidade da Marcha Contra o Genocídio do Povo Negro

Foto de Leo Ornelas

Foto de Leo Ornelas

Por Ricardo Gomes

Há pouco mais de uma semana atrás acontecia em Salvador a III Marcha Contra o Genocídio do Povo negro. Organizada pela Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou será Morto, a III Marcha ocorreu depois do Encontro de Formação Pan Africanista, também organizado pela Reaja e parceiros. Tendo em mente que a marcha contra o genocídio do povo negro não termina com o fim da caminhada pelas ruas de Salvador, ao contrário, a caminhada é só parte do processo da marcha, talvez seja importante lembrar o contexto geográfico imediato em que ela aconteceu. Lembrar da cidade, os problemas da(s) ciadade(s) e, desde o limite do meu local dentro da luta contra o genocídio do povo negro, a maneira como a Campanha Reaja articula essa luta neste contexto.

A Reaja desempenha um trabalho político intenso nas comunidades, presídios e pelo interior do estado, cuja diversidade inclui a marcha. Está sempre marchando, sempre se deslocando para onde a luta exige. Sempre tendo em vista a construção de articulações. Ou, no dizer da própria Reaja:

“A Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro não é uma ação que começa e se encerra num evento, numa data predeterminada. Trata-se de um conjunto de ações permanentes e articuladas que ocorrem o ano inteiro, através de enfrentamentos, debates, ações, articulações, serviços comunitários e construção de espaços de solidariedade em vilas, favelas e prisão.” (http://reajanasruas.blogspot.com.br/2015/07/iii-marcha-internacional-contra-o.html)

Sobre o Encontro de Formação Pan Africanista, posso/devo falar sob meu ponto de vista de branco apoiador e participante, ou seja, serei breve e específico. O Encontro teve um viés claramente transnacionalista, centrado nas questões da diáspora negra. Numa aliança política que fortalece a solidariedade entre os negras e negros de todo o mundo que lutam radicalmente contra o racismo e o genocídio implementado pelo Estado e pelo estado de coisas atuais. A Campanha Reaja e parceiros conseguiram mobilizar uma série de grupos internacionais para dentro do Encontro. A complexidade destas alianças e a movimentação interna do Encontro está sendo tratado de maneira legítima, complexa e radical por negras e negros militantes, participantes e simpatizantes da Campanha Reaja e do Encontro de Formação Pan Africanista.

Assim, devo falar do entorno onde essas alianças se desenvolveram, ou seja, falar um pouco das minhas impressões sobre a cidade de Salvador e tentar pensar como o funcionamento da cidade está entrelaçada no desejo de manutenção do genocídio. Me aproximando da cidade percebo (como alguns amigos já haviam me falado) que a cidade vive uma situação absurda e desoladora. As chacinas são quase cotidianas, mais do que isso, são banais. Viraram, de um lado, índices positivos da produtividade policial e de outro a matéria diária de diversos programas de tv. Programas covardes, ilegais e desumanos. Mas, nesse caso, não há diferenças fundamentais entre esses lados, a pm e a tv, são como linhas paralelas que se cruzam e se alimentam, materialmente falando. Um legitima e produz o outro.

A criação de um imaginário do medo, os personagens que são estabelecidos para que este imaginário funcione, o lucro obtido com isso, a maneira como isso deve ser combatido, as relações de poder que são mantidas por contas desse imaginário. Enfim, a criação de uma sociedade que, como num filme, obedece ao processamento linear (cruel) e fatalista que lhe é imposta. Mas, ainda como num filme, obviamente não há pura passividade nesse processo, há projeção e reconhecimento de um moral que organiza os tipos e os modos de vida desejáveis ou não desejáveis. As subjetividades punitivas que são forjadas neste processo, se estabelecem porque há uma troca real entre telespectadores e ‘formadores de opinião’, para ficar no exemplo da tv. Isso se dá em todas as classes, é bom dizer. Portanto, sem querer, nem de longe, esgotar a questão, podemos afirmar que não se trata simplesmente da velha alienação. Este termo não é suficiente para apontar a relação que existe entre a população que deseja e reforça os preconceitos, quando escolhe quais são os tipos sociais/raciais a serem abatidos, quais os modos de vidas a serem destruídos e etc, e a própria maquina genocida, dentro e fora dos governos que executa efetivamente os tipos sociais que, de alguma forma, foram escolhidos pela população. Temos portanto, a grosso modo, um desejo que alimenta e legitima a maquina genocida e vidas que podem/devem ser abatidas. Isto aparece dentro de uma sociedade forjada e apegada ao mais antigo e centralizado capitalismo escravista e seus desdobramentos, Salvador. Os tipos escolhidos para serem abatidos também foram forjados neste mesmo capitalismo e nas suas atualizações, ou seja, estas vidas perdem o valor porque correspondem a alguma forma de vida que foi classificada como perigosa ou descartável.

O atual prefeito de Salvador é a imagem perfeita da amalgama entre o capitalismo escravista, com seus recortes, desigualdade e centralização extremas e absolutamente fixados no tempo, e o neo-liberalismo do tipo que concentra muita força no executivo, fazendo das outras instâncias ‘democráticas’ simples espaços para fortalecer acordos feitos dentro da chamada ‘democracia direta do capital’, tornado os ritos democráticos vazios e impotentes, e, enfim, absolutamente desacreditados. Essa é uma das linhas de atualização deste capitalismo. O prefeito do Rio se tornou um dos grandes exemplos desta estratégia. Um tipo de populismo de direita com forte discurso de gerenciamento abstrato, ou seja, a cidade é pensada simplesmente em termos indicies econômicos, lucros possíveis, utilização do bem comum para conquistar metas de produção, e que muitas vezes se serve do fantasma da ‘esquerda’ para desobstruir certas resistências ou desejos de resistências, ou seja, numa aliança política de calda longa, instalar partidos ditos de esquerda dentro dos governos para que eles façam a mediação com as resistências destas técnicas de gerenciamento e produção. Enfim, a cidade aparece como o grande terreno de luta atual onde trabalhadores precarizados são super-explorados. Entendemos que o aumento de número de mortes praticados pelo Estado nestes últimos anos que, inclusive são os anos de poder do PT no governo do Estado, se dá dentro deste projeto de aprofundamento neoliberal centrado no racismo. A Campanha Reaja nasce justamente em 2005, no advento do primeiro governo do PT no Estado. Sentido o aumento de números de execuções, um grupo de militantes do movimento negro da Bahia ocupam a secretaria de segurança. Havia o ali o entendimento de que algo mudara. Não eram mais os grupos de extermínio e esquadrões da morte que praticavam tais execuções. O que era novo no cenário era a institucionalização das execuções. O Estado havia tomada pra si o papel direto de fazer a limpeza social. Os nomes dos planos de segurança são as provas cabais desta macabra descoberta da Reaja. Planos como Saneamento básico I e II, Quilombo, o Baralho Crime e etc, serviram para fortalecer a ideia de inimigo interno e viabilizar a violência institucionalizada.

Em Salvador, os sinais mais evidentes deste tipo de comando puro e arbitrário são, além da violência policial dentro da cidade, as transformações urbanas pelas quais a cidade passa. Exemplos de mudanças urbanas que visam ‘requalificar’ a cidade, ou seja, torna-la cada vez mais adequada ao bom desenvolvimento dos fluxos do capital e seus limites internos que reforçam os mesmos centros de poder, não faltam. O Mercado do Rio Vermelho é um exemplo:

“Os 16 permissionários atuais serão expulsos, ou melhor, transferidos para mercados de bairros — entre as opções estão Periperi e Itapuã (este, ainda nem entregue). Quanto às dezenas de garçons e atendentes, o caminho é o olho da rua mesmo. E o espaço popular, com preços idem, adeus, né?

Segundo a prefeitura, a brincadeira de revitalizar (sic) um local que passou por uma grande reforma recente (menos de 5 anos) e que só precisava de manutenção regular, para continuar cumprindo satisfatoriamente a sua função (popular, acima de tudo), prossegue na manhã desta quinta-feira (30/7), com a retirada dos comerciantes que atuavam nos boxes. Estes darão lugar a quiosques. Na verdade, onde hoje estão os boxes ficará  um estacionamento para 140 veículos. Os boxes do antigo mercado serão demolidos “para continuidade do processo do novo projeto de urbanização do local”, diz a prefeitura.”(http://migre.me/rjLNy)

O fim ou redirecionamento de linhas de ônibus da barra e de outros lugares da cidade, o papel cada vez maior de pessoas das polícias dentro dos diversos governos (principalmente do governo estadual), a transformação de locais da cidade com o intuito de empreender um tipo específico de revalorização da área, o que implica remoção, privatização, perseguição aos trabalhadores informais e etc. Todo o sufocamento de espaços minimamente disputados por uma coletividade que deseja tomar posse de maneira efetiva do que lhe pertence, ou a conivência com a precarização de espaços que carregam uma série de atividades tradicionais, deixando este espaços serem destruídos pelo tempo sem prestar a devida atenção, são estratégias para a reorganização urbana das pequenas ilhas da cidade (bairros como Barra, Graça, Pituba e etc) onde a polícia ainda não atua como advogado de acusação, júri, juiz e executor. Tudo isso sem atrapalhar o trânsito, claro, o fluxo dos núcleos (duros) do individualismo capitalista não podem ser contrariados (http://migre.me/rjLBV).

Outro local onde se dá este tipo de gerenciamento é Recife. No projeto Novo recife o neo-liberalismo também se apresenta. Não a toa Recife tem também altos índices de mortes violentas com ações do estado.

“Já no fim da desastrosa administração de João da Costa (PT), no apagar das luzes de 2012, o Projeto Novo Recife foi aprovado de forma completamente arbitrária. Sem Estudos de Impacto Ambiental e de Vizinhança, sem aprovação do Iphan ou pareceres do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e da Agência Nacional de Transporte sobre Trilhos (ANTT), o Novo Recife foi apresentado para a sociedade através da mídia, sem ter havido sequer uma audiência pública para que a população propusesse diretrizes para o uso do espaço.”  (http://passapalavra.info/2015/06/104827)

Isso torna evidente o que uma série de pensadores chamam atenção. O processo de ‘modernização’ é global e impõe uma estrutura de funcionamento que pouco varia de cidade para cidade, país para país. Anchille Mbembe, pensador camaronês, descreve o neo-lebaralismo assim:

“Por neoliberalismo entenda-se uma fase da História da Humanidade dominada pelas indústrias do silício e pelas tecnologias numéricas. O neoliberalismo é a época ao longo da qual o tempo (curto) se presta a ser convertido em força reprodutiva da forma-dinheiro. Tendo o capital atingido o seu ponto de fuga máximo, desencadeou-se um movimento de escalada. O neoliberalismo baseia-se na visão segundo a qual «todos os acontecimentos e todas as situações do mundo vivo (podem) deter um valor no mercado»4. Este movimento caracteriza-se também pela produção da indiferença, a codificação paranóica da vida social em normas, categorias e números, assim como por diversas operações de abstracção que pretendem racionalizar o mundo a partir de lógicas empresariais” (Mbembe, Achille. Crítica da Razão Negra)

Como vemos, submissão total, gerenciamento urbano a partir dos desejos das empresas e seus lucros, forma-dinheiro organizando todas as relações sociais e etc, se transformaram na estrutura geral de funcionamento das cidades.

Aqui, a chamada modernização urbana ou ‘requalificação dos espaços urbanos’ é sempre acompanhada de uma maquina de destruição em massa. As duas são sustentadas e constituídas fundamentalmente pelo racismo, já que a grande maioria dos focos de resistência são feitos pelas comunidades pobres, ou lutas que se ligam às resistências destas comunidades. Estas maquinas de destruição servem para reforçar o projeto branco de poder estabelecido e seu endurecimento flexível no neoliberalismo. Ao mesmo tempo ‘requalificando’ a cidade e combatendo/destruindo os copos e subjetividades desviantes.

Portanto, não é a toa que a Campanha Reaja ganhe uma grande importância dentro do cenário de lutas atuais. Primeiro, por que ela se apresenta com um projeto alternativo e radical de sociedade. Depois, porque, estando agindo desde dentro das comunidades, organizada e comandado por mulheres destas comunidades, por pessoas do interior que lutam por terras e pela juventude que está construindo a autonomia do Povo Negro dentro das cadeias, universidades e quebradas, a Campanha Reaja se lança como núcleo fundamental de uma outra articulação complexa que enfrenta desde já este estado de coisas e, em grande medida, vive um outro tempo. Tempo de decisão e ação comunitária, fortalecimento de laços, linhas internacionais de propagação e criação coletiva e solidária. Sem abrir a ‘cara fechada’ (expressão baiana que quer dizer indignação, revolta, seriedade), a Campanha Reaja construiu um Encontro internacional e a III Marcha dentro do percurso incontornável do luto a luta. A marcha como um grande ritual estético-político onde cada corpo abatido é todo corpo, e assim, nenhum corpo é totalmente destruído, já que o corpo coletivo pulsante e aberto segue, e a cidade que sangra é elevada à categoria de solo fundamental da luta, das memórias das lutas e, portanto, necessariamente, da continuidade das lutas. Salve a campanha Reaja, sua autonomia e sua-nossa luta!

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