Das Lutas

Coletivo

Nasce uma outra escola

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Por Karine L. Narahara

No portão, trancado por um cadeado, um cartaz escrito a mão listava a pauta de reivindicações, enquanto outro sinalizava a entrada pela garagem. Caramba que escola grande! Alguns alunos estavam junto ao portão. Cuidavam da entrada. Perguntava quem éramos, o que viemos fazer, e pediam documentos. A sombra da repressão, assim como nas escolas de sampa, pairava. Eu nunca havia estado no Cairu, onde minha mãe e meus tios estudaram nos anos 60. Meu pai, na época, tentou várias vezes o concurso para estudar no Cairu. Mas nunca conseguiu passar na tal prova. Tempos em que as escolas públicas cariocas tinham vagas disputadas. Fomos subindo uma escadaria com um aluno que nos guiava, um rapaz que dizia que seu pai também havia estudado ali. Talvez a gente tenha conhecido o pai desse garoto, quando tínhamos a sua idade e passávamos parte de nossas vidas entre a pracinha do Méier e a rampinha de skate. Caramba, já estive aqui sim. Lembra daquele evento? Um bando de adolescente viciados em Rage Against, Deftones, a galera do skate… E as bandas dos nossos amigos tocando. A gente voa pros anos 1990 em um milionésimo de segundo. Na cantina, a molecada, meninos e meninas, assumiram a pilotagem dos fogões. Diz o rapaz que eles mandam muito bem no rango. Pela escola também alguns professores, que estão em greve e na ocupação. Próxima parada: a famosa bat-caverna, antigo vestiário abandonado e transformado em depósito de entulho desde de pelo menos meados dos anos 1990. Móveis antigos, ferros retorcidos, slides de geografia, pratos de cerâmica… Paredes velhas, buracos no reboco. Diz que na década de 60 a escola já andava meio abandonada. Mas ao menos tinha fama de “boa escola”. Pedem para que não tiremos fotos. Estão organizando este registro. Seguimos pelo pátio, até a quadra coberta, que fica ao lado da quadra aberta. Fomos conhecer o bosque da escola. A maior área verde do Méier, certamente maior que o Jardim do Méier. Uma horta ali do lado da cozinha, uma composteira… Mil idéias vão sendo tecidas no encontro deles com gente como nós. “Bora fazer um Viradão Cultural e chamar a MC Carol?”. A escola tem uma sala do grêmio, que virou depósito de entulho. “Descobrimos que temos direitos. E um deles é o de ter uma sala do grêmio dentro da escola”. Na biblioteca, alguns moleques e molecas conversavam e jogavam xadrez. Não que não tivessem acesso á biblioteca antes, ela dizia. Mas é como se agora, nesse estar-na-escola peculiar, eles estivessem vivendo de uma nova maneira a escola. Talvez a escola possa ser algo além das aulas entediantes e sem sentido. E não é necessário métodos mirabolantes inventados na Europa, ou milhões de dólares. Sim, é preciso uma grana. Mas, mais que tudo, basta que eles estejam à frente da história. Para os professores o novo ser-na-escola também permite algo novo. O professor de física, também massacrado pelo violento sistema educacional, finalmente pode usar suas engenhocas meu colégio minhas regrasde garrafa pet e tubos para ensinar as leis da termodinâmica na prática. Isso era impossível na normalidade escolar, com 60 jovens atochados em uma sala. Haviam ocupado há poucos dias, e alunos de outras escolas, que ainda não foram ocupadas, já haviam ido visitá-los. Os meus olhos enchem d’agua em vários momentos. Nunca vivi uma revolução. Mas o que acontecia ali diante do meu corpo deve ser uma. Por isso, este meu relato é um convite: visite alguma das 31 (o número não para de crescer) escolas ocupadas no estado do Rio de Janeiro. Enquanto a vida perece resumir-se a um eterno Fla x Flu, em meio a esta democracia falida e para poucos, estar com essa garotada é um sopro de esperança para os nossos sonhos e lutas.


Um comentário em “Nasce uma outra escola

  1. renatatorres
    12 de julho de 2016

    Eu visitei algumas escolas e as lágrimas também me ocorreram. Que sopro de coisa nova, de democracia, de exercício de todos os direitos há tanto negados…

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