Das Lutas

Coletivo

Acerca dos Grupos de Afinidade

Imi Hwangbo

Em A Batalha, n.º 197, Jan. – Fev. 2003

Apoio na republicação: GAMA – Grupo de Afinidade e Movimentação Anarquista

A maior parte dos textos relativos aos grupos de afinidade no movimento anarquista – escritos por militantes, entenda-se – são muito mais constatações do que definições teóricas. E como as situações de facto são numerosas e raramente idênticas, também não são sempre as mesmas as características valorizadas. Vejamos, no entanto, quais os pontos comuns em que numerosos autores – pelo menos dos que conheço – coincidem quando se trata de definir os grupos de afinidade.

A ideia de afinidade não é sequer muito precisa. Afinidade de ideias ou afinidade de temperamentos? Ou necessariamente ambas? Nos meios anarquistas, diz Sébastien Faure (1) a palavra afinidade “exprime a tendência que leva os homens a agrupar-se por semelhança de gostos, por conformidade de temperamentos e de ideias. E, no pensamento e na acção, os anarquistas opõem a espontaneidade e independência com que estas aproximações se produzem e estes grupos se constituem à coesão obrigatória e à associação forçada determinadas pelo meio social actual”.

Murray Bookchin procura uma origem histórica ao grupo de afinidade e encontra-a curiosamente numa época relativamente recente, em Espanha: ” A expressão inglesa affinity group é a tradução de grupo de afinidad, nome que designava em Espanha a célula de base da Federação Anarquista Ibérica, núcleo dos militantes mais idealistas da CNT, a grande central anarco-sindicalista” (2). A sua definição é original: “um novo tipo de família alargada, na qual os laços de parentesco são substituidos por relações humanas de profunda simpatia, que se nutrem de algumas ideias e duma prática revolucionária comuns”. Retoma-se o princípio da afinidade de ideias, manifestando-se a afinidade de conduta pelo “estilo revolucionário da vida quotidiana”. O grupo “criava um espaço livre onde os revolucionários se podiam reconstruir eles próprios, como indivíduos e como seres sociais”. O que nos remete, mais precisamente, às observações do velho Sébastien: o grupo consegue escapar ao “meio social”. Bookchin afirma poder comparar o grupo de afinidade que funcionava em Espanha nos anos 30 (guardadas as proporções e tomando em conta as conjunturas) com as formas de organização adoptadas pelos “radicais” norte-americanos: “comunas”, “famílias”, “colectivos”.

Para os militantes dos Grupos Anarquistas Federados de Itália (G.A.F.) o acento tónico é posto na comunidade inicial de opiniões: os tradicionais grupos de afinidade “com forte coesão de opiniões gerais e particulares, podem …respeitar os princípios de base…permanecendo eficazes nas tomadas de decisão” (3). Acrescentam no entanto: “Afinidades de ideias, mas também afinidades pessoais, indispensáveis porque o grupo não é uma empresa, mas uma maneira de viver em conjunto na luta, como parte integrante da sua própria vida.”. Reencontramos aqui o duplo carácter do grupo de afinidade, ainda que os G.A.F. vejam neste grupo “o primeiro momento da organização anarquista”, isto é, o elemento de base para uma federação, ao passo que Bookchin diz: “(os grupos) podem federar-se muito facilmente…”

Primeira observação: os autores vêem no grupo de afinidade uma forma de organização natural e não examinam os seus possíveis defeitos. Partem duma realidade constatada e tendem a encontrar nela apenas virtudes. Não colocam a questão de saber se o polo do agrupamento é a comunidade de ideias ou a simpatia pessoal. Se é a comunidade de pensamento que é essencial, não se vê o que distingue – no que respeita estritamente ao mecanismo de associação – um grupo anarquista de qualquer outra organização de carácter ideológico. Se são os laços afectivos que predominam, a partir dum pensamento libertário mais ou menos nítido, o funcionamento interno e a razão de ser do grupo serão então duma natureza muito particular.

De facto, a imprecisão relativa à origem e fins do grupo de afinidade deixa intacta a ambiguidade do seu papel: elemento de intervenção na sociedade ou contra-sociedade? Dentro da sociedade ou fora dela? Questão que não é necessariamente crítica, nem agressiva, mas que requer esclarecimento.

A dimensão é o segundo elemento para definir os grupos anarquistas. Bookchin: “Cada grupo de afinidade conservava deliberadamente dimensões reduzidas, para garantir a maior intimidade possível entre os seus membros”, e “Pelas suas características, o grupo de afinidade tende a agir de maneira molecular”. Os G.A.F.:”…um núcleo de militantes em número suficientemente reduzido para permitir a participação de todos nas decisões, e suficientemente grande para beneficiar das diferentes experiências pessoais ou de luta”. E também: “Só núcleos pouco numerosos, com forte coesão de opiniões gerais e particulares…”.

Nova observação e nova questão: se os grupos de afinidade, para funcionarem bem, isto é, para que os seus membros possam participar efectivamente nas decisões e nas acções, devem ser de pequenas dimensões, possuir um número limitado de aderentes, será porque qualquer organização numerosa incorre nos riscos de hierarquização e de burocratização? É provável, mas então esta constatação deve aplicar-se a toda e qualquer organização “popular” e ter consequências práticas de grande importância para uma táctica ou estratégia libertárias. Porque enfim, se entre companheiros se devem tomar todas as medidas para evitar a degenerescência dominantes/dominados, que precauções não será necessário prever para organizações que agrupam milhares de seres humanos pouco conscientes dos perigos autoritários? Ora Bookchin diz, por exemplo, a propósito dos grupos de afinidade:”eles podem também criar comités de acção temporários (como os estudantes e operários franceses em 1968), coordenando tarefas precisas. Mas, principalmente, os grupos de afinidade estão enraizados no movimento popular”. Um movimento popular em estado puro, inocente? Sem partidos, sem sindicatos centralizados, sem dirigentes?

Chegamos assim ao terceiro ponto comum da maior parte das definições: o papel dos grupos de afinidade na vida social. Há uma espécie de extrapolação da prática – ideal – dos grupos na imagem – idealizada – dos movimentos populares. Sébastien Faure: “…homens que pertencem à mesma classe, necessariamente próximos pela comunidade de interesses, a quem as mesmas humilhações, as mesmas privações, as mesmas necessidades, as mesmas aspirações formam pouco a pouco, com pequenas diferenças, o mesmo temperamento e a mesma mentalidade, cuja existência quotidiana é feita da mesma servidão e da mesma exploração, cujos sonhos, cada dia mais precisos, conduzem ao mesmo ideal, que têm de lutar contra os mesmos inimigos, que são supliciados pelos mesmos carrascos, que se acham todos curvados sob a lei dos mesmos Amos e todos vítimas da rapacidade dos mesmos gananciosos. Estes homens são levados gradualmente a pensar, a sentir, a querer, a agir concordante e solidariamente, a realizar as mesmas tarefas, a assumir as mesmas responsabilidades, a travar a mesma batalha e a unir a tal ponto os seus destinos que, na derrota como na vitória, a sorte de uns permanece intimamente ligada à sorte dos outros: coesão voluntária, associação desejada, agrupamento consentido. Aqui se afirmam todas as energias da afinidade, procedentes da analogia dos temperamentos, do parentesco dos gostos, da conformidade das ideias”. Bookchin: “Os grupos de afinidade tinham por função actuar como catalizadores no contexto do movimento popular…”.

Os G.A.F. são menos incisivos quanto ao carácter “espontaneamente libertário” dos movimentos populares e quanto ao papel especifico dos grupos anarquistas: “a libertação das tendências populares, igualitárias e libertárias, é um fenómeno efémero se não tiver possibilidade de se exprimir nas organizações adequadas”(4). Mais adiante: “As condições subjectivas necessárias a uma re-volução social libertária são, esquematicamente, a maior extensão possível, quantitativa e qualitativa, do movimento anarquista e da presença libertária organizada no conflito social, e também a maior difusão possível da consciência crítica, do espírito anti-autoritário de revolta”(5).

Consequentemente, encontramos alguns traços comuns entre estas diversas interpretações: o grupo de afinidade é um elemento de base do movimento anarquista; a afinidade é dupla: ideias e laços de camaradagem; reune um número restrito de militantes; está ligado aos movimentos populares de emancipação. E no entanto, a despeito destas similitudes, sentimos bem que as concepções são divergentes, os fins diferentes, as perspectivas distintas. Todos admitem uma situação de facto – a existência duma tradição de grupos de afinidade – e partem desta verificação para dar aos grupos tarefas, funções e um funcionamento particulares. Há nisto um equívoco que seria bom dissipar.

PRÁTICAS

A fronteira parece passar, não entre interpretações mas no interior mesmo do grupo de afinidade. Consoante este é caracterizado por uma intensa vida interior ou por uma actividade voltada essencialmente para o mundo exterior, o grupo de afinidade é meio, sociedade em si, ou, pelo contrário, instrumento de combate contra a sociedade tal como ela funciona e até factor de construção duma sociedade diferente.

Tomemos dois exemplos extremos: o grupo-familia de Bookchin tem pouco a ver com o grupo-activistas da G.A.F. Esta constatação não significa que o grupo-família não possa agir sobre o exterior, nem que o grupo-activistas não sofra o jogo das relações pessoais entre os seus membros. O importante é compreender que as suas razões de ser e os seus objectivos não são os mesmos.

Levando a análise ao extremo, mas com referência a experiências ou comportamentos observáveis, o grupo-família pode diluir-se até se tornar um lugar de encontro circunstancial para indivíduos “libertados”. Ao passo que o grupo-activistas se pode transformar num micro-partido.

Quando Richard Gombin (6) opõe a noção, e a prática, do grupo anarquista de antes da guerra (1939-45) à do indivíduo-movimento “radical” dos anos 60, põe em evidência alguns caracteres específicos do primeiro (algo caricaturados): “Só o grupo era apercebido como estrutura de contestação – ou de revolta. Nas condições do capitalismo entre as duas guerras só a intervenção do grupo sobre a sociedade, sobre a realidade social, parecia ter alguma hipótese de êxito…A revolução era apercebida como um acontecimento situado num futuro vago, mas o grupo vivia em função desse hipotético acontecimento…Tanto pelos seus preconceitos e tradições como pelas suas relações privadas – atitude para com as mulheres, as crianças, a homossexualidade, a moral em geral. Havia, evidentemente, experiências isoladas de vida em grupo, de vida amorosa livre, etc. Mas eram casos marginais e não representativos”. Ao passo que “o revolucionário anti-autoritário tem uma prática de contestação como indivíduo a todos os níveis da sua vida…Contestará a autoridade e as repreensões do patrão ou os apelos patrióticos dos chefes políticos, sindicais ou intelectuais. Na medida em que encontre indivíduos que pensem e actuem como ele (na escola, como parceiros sexuais, no trabalho, em férias) sentirá menos a necessidade do grupo”. Em conclusão: “Gerações de anarquistas tinham concebido a revolução como a ‘grande noite’, acontecimento único, apocalíptico, que faria surgir uma sociedade inteiramente nova. A revolução é agora entendida e assumida como uma série de actos de recusa, de ruptura e de indispensável criação. O acontecimento final que fará bascular a ordem antiga chega mesmo a parecer secundário. Secundário porque o invólucro da sociedade opressora (o seu Estado, os seus princípios, as suas instituições) estalará naturalmente logo que o seu conteúdo haja sido transformado: a questão do poder no vértice será resolvida pela tomada de todos os poderes na base”. Não se trata mais da grande noite, mas duma era de manhãs triunfantes!

Deixemos de lado o facto de saber se pertencer a um grupo, nos anos 30, estava ligado a preconceitos, tradição e comportamentos morais burgueses; deve recordar-se que a insubmissão, a deserção,’ a ilegalidade, as práticas anticoncepcionais, as lutas nos locais de trabalho, os conflitos físicos contra estalinistas e facções da extrema direita, etc., faziam parte da vida militante quotidiana e não eram somente temas de discussões ociosas para as reuniões das manhãs de domingo. O que é significativo neste raciocínio é que hoje seria possivel viver a contestação a título individual, e que a acumulação de recusas acabaria por tornar impotente o poder.

Temos mais uma vez uma espécie de teorização do comportamento. Um comportamento que é real, individualmente ou por grupos-famílias. Mas que só o é em condições circunstanciais e limitadas: numa sociedade de relativa abundância, permissiva, isto é, em algumas regiões do mundo inndustrializado e pós-industrializado. Não é tanto o indivíduo ou o grupo-família que lutam, se impõem e vencem a autoridade, mas a sociedade que deixa fazer e possui os meios de deixar fazer. (Num Estado como a França, onde a mobilização geral era considerada a base da defesa nacional, desertar era um crime duramente castigado, mesmo em tempo de paz. Hoje, as novas condições dum conflito armado tornaram possível negociar um estatuto para os objectores de consciência. Isto não quer dizer que a luta dos insubmissos e dos objectores não seja útil nem difícil, quer dizer que a táctica e a estratégia libertárias se não podem alhear do funcionamento prático da sociedade).

Ainda mais importante é certo deslizamento para uma a-sociedade; encontramos esta concepção e este comportamento em numerosos grupos-famílias actuais. A ideia e a prática é que a sociedade hierarquizada e opressora não tem que ser combatida enquanto tal, mas deve ser, na medida do possível, ignorada, contornada e evitada. Chega-se assim muito facilmente a uma espécie de carpe diem, de “gozemos sem peias”, que não é certamente condenável em si, mas que não proporciona nenhuma resposta aos problemas da luta contra uma sociedade que, na Europa ocidental como na América do Norte, não presta atenção a esta forma de marginalização, subproduto da affluent society.

Só quando as recusas não são recuos ou evasões mas vontades apontadas a uma outra sociedade e negações lúcidas da sociedade presente é que o combate se torna claro. Esta noção obscurece-se até desaparecer quando as recaídas da abundância e o seu aproveitamento permitem confundir a luta contra uma sociedade firme, capaz de integrar os opositores e de se transformar sem nada dever às diatribes revolucionárias, e uma marginalização desdenhosa, mas de pouco peso e inconcebível noutras regiões do mundo.

Outro exagero é o do grupo-activistas, que imagina poder pesar no “curso da História”, graças à prática duma espécie de maquiavelismo dirigente. Para exemplificar: a curiosa mentalidade propagada em França pela Federação Comunista Libertária, ao longo dos anos 50, e que correspondia a uma vontade – e a uma prática – de manipulação da corrente libertária, por pequeno núcleo de militantes, mais cúmplices nas manobras do que unidos por idêntica lucidez.

Acha-se assim colocado o problema de saber se a afinidade não conduz ao esquecimento das razões de ser do grupo, do mesmo modo que – em contra partida – o trabalho de equipa conduz a um outro tipo de demissão.

A VIDA INTERNA

Deixemos as definições, clássicas ou recentes, e vejamos o que se passa comummente nos próprios grupos (os quais, em geral, se preocupam pouco com pressupostos teóricos).

O seu mais grave defeito é a propensão quase irresistivel a transformar-se numa sociedade fechada, isto é, a esquecer rapidamente a razão de ser da sua existência, a saber a intervenção nas lutas sociais, o esforço de conhecimento da sociedade e da época para agir melhor, a propaganda. É verdade que é bastante raro ver nascer um grupo em função de objectivos precisos. O que é frequente é a formação dum núcleo que “quer fazer qualquer coisa” e que se transforma pouco a pouco numa espécie de família onde fervilham os problemas das relações pessoais, ainda que mascaradas por controvérsias, ou as alianças, ideológicas ou tácticas. Curiosamente manifesta-se um fenómeno burocrático (se se entende pelo termo burocracia ao primado dos interesses próprios do órgão funcional em detrimento do cumprimento dos serviços para que foi criado). O grupo acaba por viver sobre si mesmo, para si mesmo, embora respeitando certos rituais: participação em campanhas gerais, venda e difusão de publicações, assistência a congressos, mesmo que apenas na qualidade de observador.

É o grupo em si que se tornou essencial, e as disputas internas depressa se convertem no eixo das reuniões, como a doença se transforma em centro de interesse – de vida – para certos doentes. Notar também o ressurgimento das taras denunciadas na sociedade: dirigismo sob diferentes formas, gerontocracia, divisão entre os que falam e os que se mantêm calados.

Num número recente da Lanterne Noíre (7), um colaborador que parece ter uma longa experiência da vida dos grupos e de os observar com olho de prático, assinala: “…0 grupo afinitário não é uma opção face aos perigos da organização. A dominação, expulsa pela porta, regressa pela janela”. Contudo, mais adiante: “…Não é menos verdade que certas actividades de propaganda e de elaboração ideológica estão facilitadas no pequeno grupo afinitário, sem contar com o facto em si mesmo positivo que é a actividade em comum de pessoas que se reunem em função dum projecto revolucionário e, simultaneamente, por razões de temperamento ou afecto”. Trata-se duma constatação, que só exemplos concretos poderiam ilustrar, dum desejo, ou mesmo da tomada em consideração duma tradição que se sabe difícil de modificar?

As observações directas que se seguem são, com efeito, pouco entusiasmantes: “…A estrutura mesma do grupo afinitário, como de qualquer grupo primário – tanto familiar como ideológico – desenvolve laços interpessoais com forte carga afectiva – em que o amor e o ódio jogam a sua habitual partida de esconde-esconde, e onde o conteúdo fantasmático (inconsciente, recalcado) se estrutura em dominação patriarcal”…” A luta pelo poder no seio do grupo é discreta e geralmente inconsciente. A liderança surge centrado nas tarefas, e todas as rivalidades têm tendência a assumir uma forma ideológica. Mas a violência dos conflitos que eclodem e a frequência com que os grupos se dispersam evidenciam a matriz emocional em que assentou a sua constituição”.

Isto, para o regime interior. Se se examina o comportamento do grupo relativamente ao mundo exterior, encontram-se outros fenómenos. O primeiro manifesta-se por uma dificuldade quase insuperável em alargar o grupo inicial, seja porque a despeito da vontade declarada de recrutar ou de proliferar, a vida da célula provoca rejeição, o temor dum ingresso perturbador da “intimidade”, seja porque existe uma opção deliberada de não alargamento.

O outro fenómeno poderia ser qualificado de acordar doloroso. Produz-se quando os acontecimentos colocam o grupo perante a necessidade de entrar. em contacto com a sociedade global, de ter simplesmente em conta as forças políticas ou sociais, vizinhas ou adversas. Ocorre então uma descoberta que rompe a unidade, a solidariedade, o conformismo interno e que abre o caminho a viragens – por vezes colectivas se a afinidade prima –, ou a adaptações que só de muito longe correspondem às normas libertárias. A luz do grupo e a do exterior não têm a mesma intensidade. E aquilo que se apelida de traição não é mais, a maior parte das vezes, que uma reentrada do militante no Século, um militante tão nu e cego como qualquer outro homem, e vítima de eleição para os aparelhos de propaganda exteriores, hábeis a fazer soar os grandes temas humanitários e a colocar as eternas armadilhas para tolos.

Mais, mesmo quando os acontecimentos põem a descoberto fortes correntes libertárias, nascidas das contradições duma sociedade asfixiante, os grupos raramente estão “na onda”. Vivem muito ensimesmados e não como partes atentas e prontas a intervir da sociedade. Foi assim em 68 e, sem dúvida, em 77. Em França e na Itália.

SUGESTÕES

Abandonemos o vezo critico e lamentatório.

À falta duma definição clara do que são em última análise os grupos de afinidade, é no entanto possível dizer que são e actuam consoante a vontade dos militantes que os constituem, verdade primeira que tende a ser esquecida nas polémicas baseadas em argumentos doutrinários. Salientar também que o seu valor em termos de anarquismo se mede segundo critérios morais e de eficácia, mesmo quando se coloca a tónica nas “afinidades”. No fim de contas, dos grupos anarquistas de Barcelona dos anos 30 tanto sairam lutadores à altura da sua lenda, como ministros e coronéis. A partir destes precedentes torna-se suspeita a solidariedade afectiva generalizadora. A afinidade pode triunfar das convicções.

É desejável iniciar um esforço para dissipar uma confusão que não serve a ninguém. É perfeitamente aceitável, e por vezes entusiasmante, ver formarem-se comunidades que procuram a golpes de experiências uma forma de vida colectiva o mais livre e emancipada que é possível. São aventuras libertárias de valor indiscutível. São formas de contra-sociedade no imediato, onde os factores de simpatia, de amizade e de solidariedade são essenciais. Os seus membros não se excluem, por esse facto, doutras formas de organiação visando outros fins, ainda que se Ihes coloquem naturalmente problemas de prioridade nas escolhas e “deveres” que a vida comunitária implica.

Espera-se que não haja mescla ou confusão de géneros no espírito dos panicipantes e que cada qual compreenda bem tanto o significado como os limites do seu modo de vida e dos seus esforços.

Do mesmo modo, se a preferência reflectida vai para o grupo activista, é útil para todos saberem quais os fins imediatos da organização, eventualmente os seus fins a longo prazo. Tendo o cuidado de não confundir uma acção voluntária sobre e na sociedade, e a teorização dum reflexo ou duma subprodução desta mesma sociedade.

Uma sugestão que é válida para todos os comités, associações, colectivos e outros grupos de intenção. Isso permitirá comparar os fins aos resultados.

Luís Mercier Vega  (Julho 1977).

Foto: Obra de Imi Hwangbo

NOTAS

1 – Enciclopédia Anarquista – termo afinidade.

2 – Escuta Marxista!

3 – Documento programático dos Grupos Anarquistas Federados. Cap.XXII: Grupos e federações.

4 e 5 – idem. Capo XIX: A Revolução libenária.

6 – Sociedade e contra-sociedade – Comunidade de Trabalho CIRA.

 

Um comentário em “Acerca dos Grupos de Afinidade

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Publicado em 28 de abril de 2016 por em Memória das lutas.
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