Das Lutas

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Os Anarquistas, uma escolha política

anarchistes

Anotações para uma discussão estética

Luiz Alberto Sanz[1]

Ante scriptum: Recomendo a leitura do artigo fundamental “Glosas históricas sobre um filme de ficção”, do professor e historiador Alexandre Samis, ao qual se articula esta crítica com o objetivo de contribuir com o debate que hoje se dá na nossa sociedade sobre as formas organização da resistência popular.

 

Toda estética contém uma ética, pessoal e intransferível, mas também influenciada por e extensível à moral predominante no momento e no lugar em que se manifesta. Para fugir a mal-entendidos: não estou falando, aqui e agora, na Ética ciência, nem na Ética deontologia. A primeira estuda as questões e os preceitos que se relacionam aos valores morais e à conduta humana. A segunda reúne e codifica princípios, normas e regras que devem ser seguidos para que se estabeleça um comportamento moral exemplar, segundo preceitos de classes, religiões, ideologias ou categorias profissionais que, dependendo do seu poder, os impõem a toda a sociedade. Eu me refiro ao juízo que cada indivíduo, autonomamente, faz sobre o que é bom e o que é mau, para ele e para outros.

O filme “Os anarquistas” não foge à regra. Sua ética, porém, não é autônoma, não marca presença crítica frente à moral eurocêntrica. Foi realizado em 2014, num período que já se mostrava sinistro para a História da Europa e do Mundo, no qual os movimentos fascistas e neonazistas vinham galgando posições por todo o continente e no Oriente Médio. A enfrentá-los levantavam-se decididamente apenas os movimentos libertários e anarquistas. Nele, a história de um grupo de insurrecionalistas expropriadores é contada pela conjugação de um narrador-onisciente (o diretor-roteirista Elie Wajeman, que sabe tudo o que acontece, até mesmo os pensamentos dos personagens) e uma narradora-protagonista, a poeta Judith Loriard (interpretada pela excelente Adèle Exarchopoulos) que conta o acontecido para quem a acolheu. O resultado é que o protagonista masculino (o policial infiltrado Jean Albertini, encarnado pelo ótimo Tahar Rahim) frustra a operação de expropriação, causa a prisão dos insurrecionalistas e a morte de um dos personagens mais interessantes, Elisée Mayer (Swann Arlaud). Albertini acaba como vítima, investigado e incriminado por seus colegas da Polícia por ter facilitado a fuga de Judith, sua amante. E aos anarquistas resta ser pintados como irresponsáveis e sanguinários.

O filme cumpre o papel de simplificar a identificação dos libertários como insurrecionalistas e expropriadores, de acordo com o senso comum que as monarquias e, posteriormente, as Repúblicas, tanto as burguesas quanto as “socialistas” se esforçaram para estabelecer. Não é atoa que, poucos meses depois do ataque de extremistas muçulmanos à redação do semanário humorístico Charlie, o filme de Elie Wajeman tenha sido convidado para abrir a Semana da Crítica do Festival de Cannes. Certamente não foi por seus méritos estéticos, mas por sua postura ética.

Todos na equipe de um filme são contadores de histórias, não apenas o diretor e o roteirista. E toda história traz embutida uma moral. Pode ser explícita, como nas fábulas de Esopo, La Fontaine, Grimm ou na literatura de cordel, embora seus autores, normalmente, prefiram a sutileza dos contos populares bantus, taoístas, hassídicos, zen, sufis (estes, imortalizados em “As mil e uma noites”) ou nas grandes epopeias e tragédias que fazem parte da memória universal, do épico mesopotâmico “Gilgamés” ao drama shakespeariano “Macbeth”.

Um diretor toma uma posição ética a cada decisão: a posição da câmera, os enquadramentos de planos e cenas, a lente a ser usada, cenários, figurinos e caracterização dos personagens, a marcação de seus movimentos e o jogo de luz e sombra (sugerido pelo Diretor de Fotografia em acordo com o Desenhista de Produção). Propõe-se transmitir valores morais, estéticos, políticos, religiosos, ou materialistas, e econômicos. Sobretudo nos filmes argumentais, ditos de ficção (aqueles que parecem representar a realidade por meio da encenação). Mesmo que o negue, está propagando ideologia. Os alicerces dessa missão doutrinária é o roteiro, do qual, no caso de “Os Anarquistas” (2014), o diretor Elie Wajeman é parceiro da experiente Gaëlle Macé. Não conheço seu longa anterior, “Aliyah” (2011), muito bem recebido pela crítica que ressaltou o que, coincidentemente, há de melhor no filme que nos interessa: a direção de atores e o domínio técnico.

Wajeman, sem dúvida, é um profissional capaz, embora não seja brilhante. Sua linguagem é corriqueira e superficial, a julgar por este filme. Limita-se a encontrar a melhor forma de, por meio da catarse, envolver os espectadores na trama naturalista, novelesca, beirando o melodrama.

Mesmo nisso fracassa, não alcança a densidade e a dignidade que certamente lhe dariam diretores como Costa Gavras, Gillo Pontecorvo e Sólveig Anspach mestres do realismo político no Cinema. Ou como fizeram Rainer Werner Fassbinder, em “A Terceira Geração”, (1979) cujos personagens eram insurrecionalistas-expropriadores da década de 1970, e Hans Weingartner, no notável “Edukators – os educadores” (2003), filme que se aprofunda nos conflitos dos membros de uma célula de “propaganda pelo fato”, sobretudo depois que uma operação normal dá errado e precisam transformá-la em um sequestro.

Bertolt Brecht considerava que não há valor em derrotar os argumentos mais fracos de um adversário. Nos diálogos de suas peças buscava provar que os argumentos de seus protagonistas eram melhores que os melhores argumentos de seus antagonistas. O mesmo fazia Shakespeare. E muito antes deles, Homero.

Wajeman nega aos insurrecionalistas e expropriadores seus melhores argumentos, expõe superficialmente sua generosidade, apresenta o mais cuidadoso, como paranoico. Por debilidade do roteiro e da direção, privou Tahar Rahim da possibilidade de interpretar, agregar valor, ao conflito ético de ter que espionar e trair seus novos e calorosos amigos, companheiros de causa de seu pai, militante da Comuna de Paris, fato que ignorava até seu chefe na Polícia revelar.

O mesmo fez Dias Gomes na sua peça “Campeões do Mundo”, saudado pela crítica de esquerda como a primeira peça que pode debater livremente o período mais duro da Ditadura no Brasil. Pôde, mas não o fez. Negou aos personagens de que discordava, os mais radicais de esquerda, suas virtudes. Estive lá, também eu tive como bandeira a “propaganda pelo fato”. Éramos jovens e generosos. Não queríamos o poder para nós e muitos nem acreditávamos que viveríamos o suficiente para testemunhar o povo tomando o destino em suas mãos, nem precisar que ainda existissem vanguardas.

O diretor-roteirista e os organizadores da Semana da Crítica de 2015 em Cannes poderiam ter refletido sobre este pensamento de Fassbinder:

“Só os anarquistas têm condições de transformar a sociedade sem utilizarem o terrorismo como instrumento. Os anarquistas se parecem com a ‘primeira geração’, que vivia só de ideias. Mas eles mostram mais clareza ao colocá-las”.

[1] Jornalista, sindicalista cineasta, escritor, pesquisador e crítico de artes do espetáculo, professor titular de Jornalismo aposentado (IACS/UFF). Co-realizador dos filmes “Não é hora de chorar” (Chile 1971) e “Quando chegar o momento…” (Suécia 1978). Membro honorário do Teatro Popular União e Olho Vivo.

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Informação

Publicado em 29 de maio de 2016 por em Resistências Estéticas.
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