Das Lutas

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As violências de gênero invisíveis diárias

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*Mariana C. Santos

Estou gestando esse texto já tem um tempinho, mas estava preocupada em como fazer isso sem expor minhas próprias relações dentro dessas categorias.
É importante que eu diga que vivi quase todas essas violências de gênero, umas mais recentes, outras mais antigas, mas só posso excluir a pontinha o iceberg, uma vez que estou viva – ainda estou viva – e pretendo lutar para continuar.

Mas são as violências invisíveis que gostaria de focar nesse texto.
Elas são as mais cotidianas e as que mais fazem mulheres adoecer no dia a dia.
Depreciar, humilhar, ignorar, desvalorizar, culpabilizar… Essas são as violências explícitas mais invisibilizadas, e entretanto as mais comuns. Até porque são facéis de encaixar no gaslighting.

O que é gaslighting (muita gente já sabe, mas acho de bom tom explicar)? Bem, eu o coloco na categoria de abuso psicológico, e acredito que a maioria das feministas também o fazem. E é uma forma de abuso muito perversa.
É tudo aquilo que um homem faz de forma a desestabilizar uma mulher ao ponto de ela achar que está “louca”, que está “exagerando”, que está “perdendo a cabeça”, etc.

Pensemos… depreciar, humilhar, ignorar, desvalorizar, culpabilizar são ações extremamente desestabilizadoras.
Uma mulher apontar qualquer uma dessas ações e ser veementemente negada a sua existência é de enlouquecer qualquer uma.
E a tática mais comum é dizer que isso está na sua cabeça, amiga. A frase vai ecoar no seu ouvido: “isso foi você quem criou”.
Mas, saiba, não foi. Você vai ouvir que está “sensível demais”, que está “aumentando as coisas”, que ele nunca disse o que você está dizendo que ele disse, ou nunca fez aquilo que você diz que ele fez. Ou seja, você está mentindo e ele é uma “pobre vítima da sua loucura”.

E isso serve para a maioria dos homens no patriarcado. “Chorona”, “dramática”, “histérica”, todas nós já ouvimos essas palavras, e paramos para pensar, morrendo de vergonha, se realmente não éramos isso.
Ainda, quando você está explicando, ele te interrompe, te deixando confusa sobre seus próprios argumentos? Opa, olha aí o cabra te silenciando.

E se vocês trabalham juntos, ele pode fazer isso na frente de outras pessoas, te levando à uma explosão, ou às lágrimas, gerando desconforto na equipe, e fazendo com que a admiração por você diminua (o que pode ser o intuito naquele momento).

E, vamos confessar, a admiração por mulheres já é coisa rara. Se assim não fosse, J.K.Rolling teria assinado como Joanne, e Harry Potter seria um sucesso mesmo assim. Mas depois de milhares de recusas, era melhor se garantir com um nome pouco feminino.

Gritos e insultos são mais visíveis no iceberg da violência de gênero se são altos o suficiente para alguém ouvir. Mas às vezes, uma mudada de tom já é um grito alto o suficiente para calar uma mulher, interromper seu pensamento, silenciar, novamente.

E geralmente vem acompanhados de “a culpa é sua”, “você me deixou irritado”, e você acredita nisso!!!
Amiga, escute alguém que vivencia isso junto contigo nessas estradas da vida: A CULPA NÃO É SUA!
Te juro, de coração, que a culpa não é sua.

Se você leu alguma coisa aí em cima que parece familiar, eu também li e escrevi coisas que me são extremamente familiares. E familiares para grande parte das mulheres ao meu redor.
E, não, você não vai conseguir reagir muitas das vezes. Fomos ensinadas a calar diante da manipulação, e acabamos por fazer isso em determinados momentos.

O importante, a meu ver, é saber identificar essas violências diárias como um sinal de neon brilhante e criar mecanismos para se defender delas. Porque elas vão existir até no cara que está tentando se desconstruir. Ele foi ensinado a ser assim desde pequenininho, e só com você reagindo ele vai saber o que está fazendo.

E se continuar fazendo, amiga, corre! Mas corre muito! Quem quer ferrar com seu lado emocional, com tua auto-estima, não deve estar nunca do teu lado, quiçá nas mesmas cercanias.

Um comentário em “As violências de gênero invisíveis diárias

  1. Eris Trismegistus
    29 de setembro de 2016

    Mariana, muito bom seu texto.

    Tenho certas restrições quanto essa ultra classificação, que nós todos tendemos a realizar nesse mundo globalizado cheio de imposições culturais. Contudo, é difícil para eu colocar opiniões e achismos em cima do drama alheio. Principalmente considerando que sou homem, branco e, em um primeiro momento, hétero. Isso, por si, já reduz meu argumento em uma discussão de gênero, onde toda a cultura e desenvolvimento da atual sociedade opressora me beneficia. Além do fato de que eu reconhecer esses fatos não faz de mim alguém melhor, mas somente alguém com consciência de ter uma responsabilidade enorme, frente a todo favorecimento que essa estrutura me orna.

    Tendo isso considerado, gostaria de abrir alguns diálogos que entendo que possam ser convergentes e somar à discussão sob uma ótica sutil.
    Todos nós em um primeiro momento, somos educados com a base na educação machista. É uma construção social, e por mais conscientes que sejamos de nossas limitações ainda vivemos presos sob a égide da cultura vigente. É essa nossa maior prisão, visto que se estende por todos nossos maneirismos, atitudes e até formação lógica. Essa limitação é particularmente evidente na forma que nos relacionamos nos dias atuais. Tenho percebido um distanciamento perigoso nas nossas relações, alimentado principalmente pela massificação que as mídias sociais geram subvertendo o que inicialmente propunham. Digo isso, pois em todos os temas de debate entram na energia masculina do combate, do maniqueísmo. É raramente percebido dentro dos debates impessoais gerados pela internet a busca por entendimento e concordância. E o frustrante é que essa impessoalidade é elevada para todos ramos de relações que possuímos. Como por exemplo, uma amiga, sofreu a pouquíssimo tempo diversos abusos e perseguições dentro do mov. feminista que a levou a beirar a depressão, quadro pela qual já passou no passado. O problema não entendo que seja fundamentalmente o homem contra a mulher e sim a cultura construída com base na energia masculina. Esse tipo de energia pode ser usado tanto por mulheres quanto por homens.

    Há mais ou menos um ano estava em um sitio entre amig@s e trouxemos esse tema para buscar um entendimento mais profundo e acima da guerra (termo que concentra uma energia masculina enorme) dos sexos. E todos tomamos atitudes questionáveis em relação aos outros visando captar energia. Um exemplo clássico disso é a pessoa que lê uma resposta como essa e só pensa em humilhar quem esta buscando crescer junto ao invés de elevar os pontos de discordância (Eris/Loki) a um debate fluido. Nesse Corinthians e Palmeiras ideológico que é gerado não há espaço para a calma e tranquilidade típicos a energia feminina. A tensão e o calor febril dentro do yin/yang é relacionado ao masculino o frio e o relaxamento ao feminino. O azul, cor da calma é relacionado ao feminino (Iemanjá, Oxum) e o vermelho ao masculino (Ogum, a batalha). Como sabemos na base as cores primarias são o Magenta (rosa) e o Ciano (azul céu) Sendo o primeiro o masculino e o segundo o feminino. O capitalismo por algum motivo oculto redefiniu essas energias entre os gêneros e o resultado que deu todos vemos hoje e buscamos lutar contra isso. Essa situação torna a questão de gênero muito mais complexa que o simples mulher é o bom e o homem é o mal, como tem-se feito em demasia em meio essa discussão massificada.
    Durante o final dos anos 90 e o inicio dos anos 2000 as discussões de gênero buscavam incluir todos interessados e gradativamente nos últimos anos vem ocorrendo um distanciamento de gênero e as discussões se tornam cada vez mais tensas e agressivas para os dois lados.

    Todos esses argumentos tem razão em ser expostos, visto que são fatos que ocorrem e agridem muitas mulheres. Acredito até mesmo que esse distanciamento possa ter se dado em função de que essas atitudes se tornaram recorrentes na relação de gêneros de quem visava discutir isso. O feminismo de fato discute as dicotomias sob uma ótica muito mais sensível pois essa hierarquia de gêneros é a ferida mais pulsante de nossa sociedade pois esta presente dentro de todas outras dicotomias (raciais, sociais, etc).
    Os homens, por sua vez, estão na zona de conforto e não se atentam para o fato que realizem essas atitudes sufocantes. Isso claro, não os exime de culpa, contudo a própria culpabilização é um termo para ser desconstruído dentro desse contexto que discutimos. Eu mesmo posso ter feito algum comentário digno de critica, mas relendo isso que escrevi não encontrei. Por favor, se puder esclarecer agradeço.

    Para finalizar gostaria de fazer poucas considerações. Primeiro que o fato de eu citar o feminino como sensível e outros termos de maior fluidez se dá pela relação à energia feminina. Gaya demonstra uma força imensa em qualquer movimentação, o feminino não significa frágil e sim coerente e agregadora. Depois gostaria de expor que estou em um relacionamento longo e frequentemente ambos nos pegamos realizando atitudes agressivas para com o outro, contudo o que faz um relacionamento ser pleno é o fato de nos apoiarmos e crescermos juntos. O apoio nos momentos de fragilidade (onde somos tomados com facilidade por obsessores) é o que nos faz um casal que confia e deposita a fé um no outro.

    um abraço e agradeço a oportunidade

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Publicado às 16 de agosto de 2016 por em Para seguir lutando, Porrada! e marcado , , , .
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