Das Lutas

Coletivo

Ressignificando o sexo após ter sido vítima de estupro

parejas-agosto

*Por Mariana Santos

 

 

A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Talvez, a mulher sentada ao seu lado no ônibus, na sala de cinema, no café, tenha sido estuprada. É bem provável que sim. Ou abusada de alguma forma.

Eu sempre tento pensar nisso ao conversar com uma mulher. Que possíveis abusos ela viveu e prevaleceu. Que abusos ela teve de enfrentar e ainda está ali, forte, viva, guerreira.

E é sobre isso que quero falar. Sobre sobreviver.

Eu tinha 15 anos quando fui estuprada. Não é algo fácil de falar. “Perdi minha virgindade sendo estuprada”. Não é uma conversa de boteco. Não é uma conversa que dá pra ter com qualquer pessoa, vide a pesquisa que saiu em que 1 em cada 3 homens julgam a mulher responsável pela violência que sofreu. Mas estou falando agora. Não vou ser gráfica sobre o assunto, mas foi algo que travou minha vida. E olha que na época eu nem tinha certeza de que tinha sido estuprada, uma vez que conhecia o estuprador, tinha planejado fazer sexo com ele, mas desisti “em cima da hora”. Minha desistência, obviamente, não foi aceita, e cá estamos nós falando sobre isso.

Eu demorei 2 anos para conseguir fazer sexo novamente. Minhas amigas da época dizem que parecia que eu “estava morta”. Eu não tinha o menor interesse em me relacionar com ninguém, e só falava sobre o que eu vivi com minha terapeuta. Outro dia me surpreendi ao ver que minha mãe não sabia disso. Eu não falava sobre isso com outras pessoas por que, ora vejam, me achava culpada!

Até tentei ficar com um ou dois meninos, mas eles achavam que eu estava fazendo “cu doce” quando não deixava que eles me tocassem de maneira mais sexual do que eles estavam acostumados com outras meninas. Eu não suportava a ideia que alguém me tocasse de maneira mais sexual, me tocasse com tesão. Foi bem complexo, e eu não conseguia explicar, ficava envergonhada, ficava assustada. E acabava chorando, confusa, sem saber o que dizer. Claro que me julgavam como histérica, ou dramática.

E mesmo com minha terapeuta me falando para me masturbar, que o ato de me tocar, de conhecer meu corpo seria libertador, eu jamais chegava ao clímax. Quando estava próxima disso, parava. Acabava me assustando comigo, com meu desejo, com tudo aquilo que estava latente em mim, uma jovem mulher, mas tão machucada.

Bem, aos 17 anos me apaixonei. E esse é o primeiro nó. Me apaixonar por outro ser portador de pênis. Como assim, certo? Porquê eu iria me apaixonar por aquela classe nojenta que ele representava? Mas, o coração, amigas, ele não é colonizável, não pra mim, e aconteceu. Hoje, pensando nesse meu ex namorado, lembro como ele era “feminino” (preciso falar de estereótipos, desculpem). Tinha um rosto de boneca de porcelana, era baixinho, meiguinho, representava a delicadeza que eu talvez precisasse para ressignificar o sexo na minha vida.

[Nesse ponto, quero deixar algo claro: essas informações foram assimiladas depois de muitos anos de terapia, e não vejo como superar um abuso sem isso. Precisamos falar sobre com alguém capaz de nos apontar saídas, nos apontar quem somos, instrumentalizar nossa dor em algo potente].

E me apaixonar foi assustador!!! Gente, vocês não fazem ideia de quanto medo eu tive. Medo de sentir dor, medo de ser rejeitada, medo de tanta coisa. Medo era uma realidade tangível, um companheiro horroroso que me dizia que eu nunca ia conseguir. Num primeiro momento, eu não deixava que ele me tocasse, como fiz com os outros rapazes. Mas eu estava apaixonada. Falava pra minha terapeuta isso, e ela me dizia que eu precisava encontrar uma forma de relaxar com ele.

Eu nunca disse a ele que havia sido estuprada, acho que as barreiras que ergui, ele encarou como sendo da idade. Eu acho, não tenho como saber, porque nunca perguntei. Ele foi muito delicado comigo, companheiro e nada afobado para um rapaz novo. E a nossa primeira vez foi incrível, empoderadora, e libertadora. Como é possível? Com muito carinho, paciência e coragem. Minhas, claro. E dele também, porque era preciso alguém ali, presente por inteiro, para que eu me sentisse segura. Contraditório, não? Acho que é assim mesmo.

Quando senti que ele estava dentro de mim, eu chorei, chorei muito. Porque não imaginava que poderia ser penetrada novamente sem sentir dor. Ele limpou minhas lágrimas, me beijou, me perguntou se eu queria que parasse e eu disse não. Eu não queria que ele parasse. Queria me sentir sexual de novo. Queria sentir. E foi isso que aconteceu. Sem mágicas ou fogos de artifício, tive meu primeiro orgasmo em 2 anos. E foi incrível! E eu me senti feliz. E aliviada. Não havia nada de errado comigo, meu corpo ainda funcionava e meu coração também.

Infelizmente, o medo volta e muitas outras vezes depois não foram da mesma forma. Eu precisei continuar na terapia por muito tempo para que essa ressignificação do sexo se consolidasse. E até hoje, de uma certa forma, eu ainda preciso de certos “parâmetros de segurança” pro sexo ser bom, e estar apaixonada é um deles. Se não é assim, eu até posso me divertir, sentir tesão, mas não é bom. Não é inteiro. Eu não fico ali inteira.

O que é importante ressaltar aqui é que ser vítima de estupro nos leva a dignidade e capacidade de crer que podemos ser amadas, ao invés de somente um corpo com orifícios. E nós podemos ser amadas, sim! E mais que isso, podemos amar. Plenamente, de forma doce, madura, completa. Somos capazes de amar de uma forma incrível, mesmo que tenham tentado nos roubar isso. Sim, o estuprador é um ladrão, um ladrão de dignidades, de respeito, de confiança, de autoestima. Ele nos rouba aquilo que temos de mais leve e feliz. Mas podemos e devemos conseguir tudo isso de volta, mulherada!

Porque sexo, ah o sexo, é pra ser delicioso! Sexo é pra ser prazer, é entrega, é troca. Aquilo que ele fez comigo, com você, com outras mulheres… aquilo não era sexo. Era violência. Não dizia respeito a prazer, mas dominação, controle e dor. E por mais violadas, envergonhadas, doloridas, machucadas que estejamos, não podemos deixar que ele vença. Precisamos lutar, diariamente.

Procure uma terapeuta legal, converse com suas amigas, converse com outras mulheres que viveram isso. Porque, por mais que tenhamos sido vítimas de estupro, nós não somos mais vítimas, somos sobreviventes. Estamos por aí, no mundo, vivendo, trabalhando, criando filhos, tomando cerveja com os amigos, ouvindo música… Porque estamos vivas! E somos fortes, guerreiras e vamos vencer todo dia o monstro que tentaram plantar dentro de nós. Esse monstro do medo. Não é uma obrigação, mas se eu consegui, talvez você também consiga e te faça tão bem quanto me fez.

Precisamos nos instrumentalizar, encontrar saídas para esse medo que pode ser paralisante e incapacitante. Um medo de sofrer novamente, de ser novamente subjugada. E sozinhas, acho muito difícil encontrar esses instrumentos. Não são parte daquilo que nos ensinam desde crianças. E o caminho para isso é doloroso, cheio de lembranças e gatilhos a cada esquina.

E se você ainda não consegue ressignificar o sexo na sua vida, não se culpe. Só de você estar aí, me lendo até agora, significa que você quer que algo mude, de alguma forma, só não encontrou as ferramentas para fazer isso. E isso não é sua culpa. Nada disso é sua culpa. Ou minha. Nunca foi e nunca será.

Sintam-se abraçadas por mim.

 

Um comentário em “Ressignificando o sexo após ter sido vítima de estupro

  1. AntimidiaBlog
    26 de setembro de 2016

    Republicou isso em REBLOGADOR.

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Publicado às 25 de setembro de 2016 por em Para seguir lutando, Porrada! e marcado , , , .
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