Das Lutas

Coletivo

Sobre a recente manifestação contra a austeridade.

Por Ricardo Gomes

(foto de Tatiana Roque)

 

Houve na última sexta feira uma manifestação contra a PEC 241 (PEC 55 no senado) e contra o ‘pacote de maldades’ do governo do Estado do Rio de Janeiro. Uma programa de austeridade que repete as formulas de sempre. Anuncia cortes drásticos para os programas sociais, aumento de impostos para os servidores e parcelamento de salários para os mesmos. Além de anunciar tais medidas como as únicas possíveis. A radicalidade do corte é sempre acompanhado da suposta falta de alternativas ao corte proposto. As isenções fiscais para grandes empresas que povoam o governo do PMDB obviamente não foram tocadas. Nem a criação de qualquer outro tipo de imposto que não seja direcionado para os mais pobres ou para os servidores públicos.

Contra esse pacote tão radical quanto esperado, os servidores convocaram manifestações nas ruas. Foram chamadas reuniões anteriores para a organização desta manifestação. Havia também o entendimento que a manifestação seguia no espaço criado recentemente por duas manifestações anteriores que questionavam a PEC da austeridade do governo federal. Além disso, houve um encontro produtivo com alguns secundaristas que estão ocupando escolas e universidades. Porém, apesar das reuniões anteriores, mais ou menos abertas, e do fato de acontecer em meio a uma mobilização anterior a ela, a manifestação se fechou num formato muito pouco produtivo. Repetindo velhos hábitos sindicais, os manifestantes de cima do carro ignoraram qualquer possibilidade de explicação e diálogo com um possível público que estivesse ao redor da manifestação e seguiram cantando e gritando as palavras de ordem que surgiram sobretudo após o impedimento de Dilma Rousseff. Ignorando a própria pauta e a possiblidade dela ganhar corpo e visibilidade nas ruas, os servidores se recolheram ao lugar confortável das bandeiras estabelecidas da esquerda. Entende-se esquerda aqui como algo absolutamente claro, que é preciso proteger e obedecer. Enquanto os secundaristas nos ensinam outros formatos e formas de atuação e vivencia política, os sindicatos se fecham.

No meio da manifestação surgiu uma série de denuncias pela forma como os sindicatos chegaram até ali. Primeiro, a denuncia de que nas reuniões de organização para o ato, teriam se comprometido com outro tipo de atuação durante a manifestação. Como, por exemplo, o tipo de fala e o percurso. Depois, a maneira como os líderes dos sindicatos sabotaram demandas específicas de sindicatos em suas regiões. Em defesa de uma suposta unidade das esquerdas, muitas lutas e projetos foram deixados de lado ou mesmo atropeladas de forma bem pouco democrática dentro das assembleias sindicais. Certamente é um momento de pensar uma rede complexa e forte para atuar, mas isso não pode implicar na repetição das velhas táticas sindicais de destruir ou enfraquecer outras demandas que podem ser tão ou mais legítima para a luta. Isso mostra sem dúvida como o processo foi absolutamente pouco democrático, respondendo a desejos pré-estabelecidos. Esse desejo, diga-se, não parece ser a criação desta rede complexa e potente de lutas, e sim, o caminho desde um lugar específico, um centro estabelecido, a obediência a este caminho. Não é nem o caso de entrar no fato de que isso tenha pretensões políticas exteriores à luta contra a precarização criada pelos projetos do governo. É suficiente a crítica sobre o erro estratégico das manifestações. Erro que foi feito a despeito das reuniões com a base da própria manifestação e a despeito da possibilidade de estabelecer um diálogo real com a população como um todo.

A luta contra a austeridade cabe a todos nós. Não podemos perder tempo construindo um projeto que não é de enfrentamento real e sim de reforço de velhas bandeiras fechadas. A população não quer nada com essa ‘esquerda’. É preciso criar urgentemente uma alternativa de luta contra os mais distintos projetos de austeridade. É preciso desejar que a população participe efetivamente deste enfrentamento e que o enfrentamento seja feito numa rede plural. É preferível ter essa rede precária que seguir o mais velho e desinteressante caminho. Esse, guiado de cima do carro de som, que prefere falar ‘Fora Temer’ ou ‘Fora Trump’ do que estabelecer um diálogo com a população.

2 comentários em “Sobre a recente manifestação contra a austeridade.

  1. Rafael Cunha Rego
    16 de novembro de 2016

    Boa, Ricardo. Mas como seria esta outra rede de lutas e articulações ?

  2. ricardogomes84
    16 de novembro de 2016

    Hoje, todo mundo fala sobre esse pacote. Como trazer todo mundo? Ou pelo menos uma parte relevante destes. Ou ainda, sendo realista, como fazer com que mesmo que não vá aos atos possa se sentir produtivamente ‘representado’? Tem que começar mudando o formato das manifestações. Não querendo simplesmente ‘internalizar’ os secundaristas no formato sindical, nem negar o papel de outras táticas. Recusando os praticantes da tática black bloc, por exemplo. O primeiro passo, na minha opinião, é esquecer essa obsessão de gritar ‘golpe, golpe, golpe’ e se abrir.

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Publicado em 16 de novembro de 2016 por em Memória das lutas, Para seguir lutando, Porrada!.
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