Das Lutas

Coletivo

Lugar de Fala

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Por Renan Quinalha

Há alguns dias, o Nexo publicou um texto bem bacana do Matheus Moreira sobre o “lugar de fala”, com opiniões de algumas pessoas. Como muita gente me escreveu demonstrando interesse e houve uma parte das questões que respondi ficaram de fora do texto final, copio abaixo as perguntas e as respostas para quem tiver interesse e paciência. Como não tenho tempo para transformar isso em um artigo agora, vai assim como perguntas e respostas:

1. Como surgiu o conceito de ‘lugar de fala’ e como essa lógica era aplicada naquele contexto?

Não há uma única certidão de nascimento que defina, precisamente, onde e quando esse conceito surgiu tal como utilizado hoje. Ele é fruto da convergência de múltiplas elaborações, oriundas de diversos ramos do conhecimento e perspectivas teóricas, tais como a psicologia social, a antropologia, o pós-estruturalismo, a teoria feminista, o pensamento decolonial, dentre outros.

Assim, não caberia aqui fazer a complexa genealogia do conceito e dos diferentes contextos e tensões que lhe marcaram. Mais importante é observar que “lugar de fala” conjuga duas palavras simples, mas carregadas de significados fortes: lugar e fala. A primeira delas, lugar, remete a uma posição específica na estrutura complexa das sociedades contemporâneas. Fala, por sua vez, supõe alguma capacidade e/ou oportunidade de articular um discurso que reverbere no debate público.

Assim, lugar e fala, articulados em conjunto, implicam a ideia de que toda fala é posicionada desde um lugar determinado e que o valor de verdade, a legitimidade e a força política de tal fala depende do lugar desde onde ela é enunciada.

2. De que maneira o ‘lugar de fala’ busca equilibrar as relações sociais e de poder?

Em termos políticos, o “lugar de fala” refere, simultaneamente, a um duplo movimento: tomada de um ponto de enunciação que deveria pertencer por legitimidade de experiência ao oprimidx e, ao mesmo tempo, despejo do titular de um lugar ocupado, por força da dominação, por aquelxs que se apossaram das tradições de fala em uma sociedade estratificada.

Desse modo, a fala expressa uma determinada configuração das relações de poder que estrutura os lugares sociais que conferem reconhecimento a cada pessoa. A cada umx, segundo esse diagrama, cabe ocupar a área definida pelos limites predeterminados dos seus territórios. Romper com a determinação justificada a partir de preconceitos, como a “incapacidade” da mulher, a “brutalidade” dos negros, a “anormalidade” das pessoas LGBT, é um passo fundamental na afirmação da igualdade elementar e das diferenças constitutivas desses grupos.

Assim, o que antes era uma posição social estigmatizada, de partida já fadada a comprometer o efeito de verdade da fala enunciada desde ali, acaba convertida em um local privilegiado, por excelência, para a reflexão em torno daquela condição. O conhecimento prático, baseado na experiência diretamente vivida daquela opressão, ganha destaque e se torna fundamental para discutir qualquer possibilidade de transformação da realidade. Uma teoria crítica não é mais apenas “sobre” os oprimidos, mas é aquela “feita sobretudo pelos” oprimidos.

Tal deslocamento mina as supostas imparcialidade e a neutralidade axiológica tão caras a determinadas perspectivas positivistas da ciência. Mais do que isso, permite o empoderamento de setores oprimidos no seu próprio processo de emancipação. A meu ver, essa é a maior contribuição desse conceito para uma política das identidades: os grupos oprimidos têm participação ativa e protagonismo nas formas de saber e poder sobre sua própria condição, rompendo com os regimes de invisibilidade e silenciamento impostos sobre esses segmentos vulnerabilizados.

3. Como o lugar de fala funciona dentro de coletivos e em ambientes de militância?

É impossível responder essa pergunta sem delimitar concretamente um universo comparativo de coletivos e ambientes de miitância, pois esses espaços são plurais, diversos e variam bastante entre si. Há, também, distintos usos sobre esse conceito de lugar de fala.

De modo geral, é possível afirmar que o lugar de fala tem sido utilizado, de forma mais recorrente, em debates identitários. Ou seja, grupos formados a partir de um marcador social de diferença (como o gênero, a raça, a sexualidade) usam esse conceito como uma instrumento, em sua ação estratégica, para reivindicar mais voz, visibilidade e autoridade nas questões que lhes tocam diretamente.

O perigo aí é que lugar de fala é a contraface do conceito de identidade. Enquanto uma construção cultural e histórica, a identidade é um suporte importante para a autoconsciência, a solidariedade de grupo e a ação política dos oprimidos. Contudo, há sempre o risco de uma essencialização da condição se a própria noção identitária não for vista como um horizonte a ser superado para ir além da lógica de segregação.

Outra cilada é a crença, muito difundida ainda hoje em diferentes círculos, de que o lugar de fala seja uma forma de superioridade epistêmica das pessoas pertencentes a grupos oprimidos. Nada garante que essas pessoas terão um acesso privilegiado à verdade apenas pela identidade ou pertença. Há diversas formas de conhecer uma realidade. O conhecimento prático e de contato com uma realidade – baseado na experiência pessoal de vida – são duas importantes formas de conhecimento, mas não as únicas e nem as mais importantes a priori. É preciso saber conjugar, em cada contexto e com os objetivos específicos em vista, as diferentes maneiras de conhecer e pensar esses temas.

4. Hoje o ‘lugar de fala’ ocupa um espaço considerável no debate político atual, especialmente nos ambientes online. Quais são as razões para isso, na sua opinião?

Diversas são as razões para essa crescente importância do ‘lugar de fala’. Primeiro, sem dúvida, isso é fruto da importância cada vez maior que as políticas da identidade com seus temas de gênero, sexualidade e raça ocupam na agenda política contemporânea. O silenciamento imposto historicamente a esses grupos tidos como “minorias” provocou um represamento de suas vozes, que agora extravasam e transbordam nos espaços públicos, dentro e fora das redes.

Em segundo lugar, pode-se pontuar uma relativa democratização da comunicação e das trocas que os ambientes virtuais estão promovendo, viabilizando diversos modos e tipos de ativismos fora dos circuitos mais institucionalizados de ação política. Há indivíduos com milhares de seguidores em perfils de internet que reivindicam o lugar de fala para se opor às narrativas mais consagradas de partidos, organizações e coletivos em torno de diversos temas.

Além disso, vivemos em uma sociedade que estimula que todos falem a todo momento e sobre tudo. Com as tecnologias digitais, isso é potencializado ainda mais e proliferam discursos e interlocutores por todos os lados. Nesse sentido, a fala atende também à ação positiva de um poder que incita discursos em vez de interditá-los. É preciso estar atento a essa dimensão de cooptação e sequestro das pautas também.

5. Como o lugar de fala se insere no debate na atualidade? De que maneira esse mecanismo é utilizado na prática hoje?

Respondida já nas demais questões.

6. O lugar de fala dá poder e qualifica o discurso de quem, tradicionalmente, é oprimido. Quais são as consequências previstas – e imprevistas – deste empoderamento, já que nem sempre o discurso de quem se apropria do conceito vai na direção do próprio movimento no qual ele estaria inserido?

Esse é, hoje, o principal curtocircuito do conceito. A prória ideia de lugar de fala, em sua acepção mais difundida, pressupõe, de algum modo, uma coerência ou continuidade entre o lugar e a fala. É como se uma pessoa posicionada de determinado modo na realidade tenha que corresponder à determinada expectativa para veicular determinado discurso. Mais: como se tivesse, normativamente, um único discurso possível de ser enunciado daquele lugar determinado.

No entanto, tem-se notado que a autenticidade de um sofrimento não tem por consequência a autoridade política de fala. É preciso não reificar a opressão, reproduzindo a lógica da exclusão e da hierarquia com sinal invertido. Como se sabe e ficou claro nesse largo processo histórico de questionamento de privilégios, os lugares de enunciação não se traduzem, necessariamente, em posições coerentes e emancipatórias com a suposta ontologia dos sujeitos.

A política transformadora que almeja universalizar princípios de igualdade e de liberdade deve ser atividade de todxs. Por direito e por obrigação. Não precisa ter título que legitime um único “discurso competente” que desqualifique de partida as outras falas e lugares. As diversas experiências – diretas e indiretas – com uma sociedade opressora precisam ser ouvidas por oferecerem outros “lugares de fala” com contribuições particulares, desde que, obviamente, haja disposição de luta para mudar o que está aí. O que não vale é legitimar discursos opressores de jeito nenhum.

7. Uma das críticas comuns ao ‘lugar de fala’ é a de que o uso deste recurso limita o debate somente entre os pares, e pode até promover o silenciamento ao impedir um grupo de falar sobre um tema. Qual é a sua avaliação sobre essa crítica?

Determinados usos (e abusos) desse conceito de “lugar de fala” têm levado a uma lógica problemática de privatização das pautas em uma armadilha identitária nos movimentos de direitos humanos. A superafirmação desses lugares como únicas e exclusivas fontes de legitimidade para discutir problemas que tocam a todxs acabam alienando ainda mais esses grupos e desresponsabilizando aquelxs que deveriam se implicar (não por generosidade, mas por dever) nas lutas por igualdade e respeito.

Devido às distorções e abusos do conceito de lugar de fala, que tem provocado silenciamento, supressão do debate e empobrecimento da argumentação, é preciso redobrar o cuidado. Não se pode transformar a identidade em objeto de um fetiche de propriedade do capitalismo em sua era imaterial.

Por óbvio, nem todas as pessoas falam do mesmo lugar social e possuem as mesmas relações como as estruturas de opressão. Não se pode negar a existência de “lugar de fala”, mas precisamente se deve frisar que “lugares de fala” é expressão que se pronuncia sempre no plural.

Nesse sentido, falta ainda aprendermos a valorizar a fala e a escuta de todxs. A busca por todas as distintas experiências deve ser incessante e, ainda que não seja fácil de ser atingida (se é que pode ser plenamente atingida), serve como um norte para orientar as ações nesses campos.

Não se pode, portanto, colocar apenas o homem branco, cis e heterossexual para falar em nome de todas as “minorias”, por mais que ele se sensibilize com as questões. Mas tampouco se pode, como em alguns momentos se tem feito, desqualificar de partida qualquer iniciativa desses homens quando tentam ser aliados dos movimentos LGBT, feminista, negro. Penso que esse equilíbrio dificil está sendo ensaiado e construído a partir das experiências concretas de militâncias tão ricas que temos visto.

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Publicado às 2 de fevereiro de 2017 por em Resistências Estéticas e marcado , , , .
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