Das Lutas

Coletivo

Nesse Mar de fel, Deposito Minha Doçura

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Foto de Leland Bobbé

Sou Christina Santana, vivi  por 41 anos detida em minha própria carne, estive  por quatro décadas morando em espelhos, fotos e contas mentirosas de redes sociais. Quero contar minha historia, compartilhar minha dor e solidão e meu prazer de,  a despeito de tudo, deixar emergir o melhor de mim,  feminino e discordante de um gênero que me impuseram desde que respirei fora da barriga de minha mãe.

Aos 09 anos de idade – a memória não me trai – é o que guardo de mais sólido em minha história repleta de violência e dor, aquele sentimento que tive quando vi a imagem de uma calcinha vestida em garotos de minha rua como um castigo, uma pena por eles terem sido traquinas e contrários a educação dura de seus pais. Se vestir de mulher ainda era castigo para homens que erravam gravemente em meu bairro, pedagogia da escravidão

Eu vi aquela calcinha branca vestida em meninos  como me disseram que eu era  e eu fiquei paralisada, congelei. Eu queria aquele castigo, eu era apenas uma criança mas amei aquela peça do vestiário das meninas. Eu corri em minha casa, tinha uma sexta de roupas sujas e uma sextas de roupas limpas  ao lado de um antigo tanque de lavar roupas, eu peguei aquela calcinha, de minha prima, corri até meu esconderijo, vesti aquela peça linda e nunca mais parei.

Aos 13 anos eu já namorava, gostava de verdade das meninas de meu bairro, todas pretas, todas com aquele porte de rainha e com suas roupas coloridas e seus cabelos crespos como uma inexplicável imagem dos céus. Eu olhava aquelas meninas, beijava suas bocas, adorava o gosto do batom e queria aquele batom em meus lábios. Eu sentia a seda de seus vestidos curtos e queria senti-los em minha pele. Eu almejava ser aquelas meninas que eu amava  e, pela madrugada afora, eu me vestia de menina, fingia uma insônia que não tinha. Era tudo para ter meu espaço de mocinha, enquanto todos dormiam. Eu tinha 16 anos e já me tornara um dos garotos mais violentos, mais duros e mais homofóbicos que vocês possam pensar que existiu por aquelas bandas  da periferia de Salvador.

Meus amigos eram muito violentos e os garotos mais femininos do meu bairro sofriam um duro banimento, piadas grosseiras que os levavam a uma tristeza profunda,  e uma violência física que podia levar a morte. Eu participava desse ritual macabro como um líder, mostrando a todos que eu não tinha nada de feminino, de viado, de mulher, mas sempre a noite, num lugar secreto que eu sempre construía, eu rebolava minha bunda grande e carnuda envolta em minúsculas tanguinhas que me faziam  feliz.

Mais ou menos aos 20 anos ingressei no movimento social de Salvador, compreendi as armadilhas do racismo, a combinação do racismo com o sexismo e me odiei por ter sido tão grosso e violento com as mulheres, mas minha dívida mais intensa tinha com os gays e especialmente com as travestis. O movimento negro me deu os primeiros caminhos para aceitação, ainda ali eu me fantasiava de macho pegador e mais masculino que todos a  minha volta, mas aprendi valores como respeito e afirmação da identidade do outro. Namorei com uma travesti, amei essa menina , mas ela nunca soube que eu invejava suas curvas, seus cabelos, suas roupas e toda sua existência. Não tive coragem de sair da masmorra, ainda o macho me manteve presa  numa torre de medo e negação.

Criei meus filhos com uma visão de respeito às identidades de gênero, minha atual esposa teve sempre conhecimento de minha prática crossdresser ainda que nunca tenha participado por minha limitação em entender o que eu era no fundo de minha alma.

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Foto de Peter Hapak

Agora em 2017, beirando meio século de vida, com o corpo marcado por uma masculinidade destrutiva, com a mente conformada em papeis que assumi de liderança política centrada na força, na luta física e na defesa de um povo que morre como inseto pela rua, em qualquer situação dada, explode em mim o desejo de ser quem realmente existe em minha alma desde que me entendo como gente. Explode em mim  como se fosse uma injeção de adrenalina invadindo meu peito, bombeando meu sangue mais puro, uma mente de mulher que não quer se esconder. O desejo de rebolar como uma mulher livre e sexualmente resolvida, a vontade de desfilar pela rua  em saltos e saias, cheirando a rosas, com perfumes que estonteiam, me maquiar com a mais doce estrela do baile, usar as mais deslumbrantes lingeries e mais que tudo, sentir que não sou um estorvo, uma aberração, um lixo sujo que precisa se manter escondido dos olhares alheio. Meu mais profundo desejo que sinto como um direito sagrado de minha humanidade é não me esconder, não fugir e não viver como uma figura imunda trancada em mim mesma. Quero ser chamada pelo nome que eu escolhi. Cristina foi uma travesti que agredi quando a violência em mim fazia que eu odiasse tudo que eu queria ser, e Cristina era aquela figura deslumbrante que me fascinava e que eu queria imitar, um dia ela descobriu em meus olhos minha alma nua e disse: “menino você é mona!“. Eu agredi Cristina ao invés de lhe pedir socorro, ao invés de lhe pedir que me guiasse, toda violência que eu sofresse como uma travesti de 18 anos não se compara com a violência de mundo normativo e binário que roubou minha felicidade por 41 anos. Sou Christina  Santana e minha mãe é Cristina sem nome, aquela linda travesti que descobriu a linda mulher que eu podia ser há 32 anos atrás.

Tem sido dura a expectativa: como encarar meus amigos, minhas ex-esposas, minha querida esposa que tem me apoiado, mas chorou em meus braços porque se sente sozinha, porque sabe que essa jornada é só minha. Ela não se casou com uma mulher, e ela sabe, eu simplesmente  sou uma mulher que não suporta mais essa prisão  de  normatividade e testosterona. Ela não casou com uma mulher, ela casou com um homem que vai se esvaindo sempre que pode, quando sente que desmunhecar na reunião dos pan-africanistas é um ato de amor  a sua humanidade plena .

Eu sou Christina Santana  e nem só de lamentação se faz minha história, mas de amor e respeito também , muito cuidado comigo vindo das pessoas que eu cultivei ao longo desses 41 anos. Tenho ligado para algumas pessoas e simplesmente dito “olha, eu sou Crosdresser  há muito tempo e estou convencida que sou uma mulher trans”, as pessoas simplesmente se calam, exclamam alguma coisa porque não acreditam que o homem que eu fui possa desaparecer assim, e confesso, nem eu acredito que esse homem que eu fui vá sumir de minha vida e eu nem quero. As pessoas me apoiam, me protegem, me dão dicas de maquiagem, me falam sobre estrogênio, que me interessa muito “apesar” de meus 50 anos.  Me falam de amor e suas histórias, me dizem pra eu seguir porque elas vão me guiar, vem demonstração de amor do Âncora do Marujo, da Alemanha, do Texas, da Praia da Paciência e de minha linda amiga de São Paulo que ensina em Volta Redonda. O mais elegantes dos meninos  estava em Portugal de férias e parou tudo para me atualizar, meu amigo mais singelo nisso tudo, o Alencar, minha querida  amiga mulherista africana de Brasília,  minha amiga jornalista criminal e sobretudo minha Esposa que mais uma vez demonstra um amor sem impor condições, estou segura que vou viver plenamente o que sou. Ser feliz é o que procuro. Só isso.

Christina Santana

Salvador , fevereiro de 2017

 

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Informação

Publicado em 24 de fevereiro de 2017 por em Resistências Estéticas.
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